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Durante uma reportagem na Grama Pressing, fábrica de discos de vinil perto de Leiria, aproveitei para esclarecer uma dúvida que acompanha muitas conversas sobre música há décadas. Hugo Ferreira, diretor-geral da fábrica, respondeu com uma expressão que me ficou na memória: “domesticar o som”.
Gosto muito de música e há uma afirmação que me habituei a ouvir: o vinil soa melhor. Mais quente, mais autêntico, mais próximo daquilo que o artista criou. Mas será que soa mesmo melhor do que um CD, uma música em streaming ou um ficheiro em formato FLAC? Quando visitei a Grama Pressing para uma reportagem do Imagens de Marca, aproveitei a oportunidade para levar essa dúvida até à origem: uma fábrica de discos.
À minha frente tinha Hugo Ferreira, diretor-geral e sócio maioritário da empresa, que juntou a paixão pela música à experiência de uma família ligada à indústria dos moldes. Coleciona mais de 10 mil discos e fala deles com o entusiasmo de quem continua a descobrir música. Queria perceber como alguém que os produz todos os dias explicava essa diferença.
A resposta levou-me a olhar para uma etapa em que nunca tinha pensado. Na produção que Hugo me descreveu, o ponto de partida são os ficheiros enviados pelos artistas e pelas editoras. Antes de a música chegar ao objeto que colocamos no gira-discos, existe um trabalho de preparação do áudio. O vinil pode, e começa muitas vezes, num ficheiro digital.
“Muitas vezes, quando nós estamos a preparar os áudios para serem cortados e para irem para vinil, nós vamos ter que fazer uma masterização diferente”, explicou. E foi então que usou a expressão que me surpreendeu: “Quando vamos fazer uma masterização específica para vinil, nós vamos ter que domesticar esse som.”
“Domesticar”. A palavra ajuda a perceber um processo técnico sem precisarmos de entrar num estúdio. A masterização é a preparação final de uma gravação para a sua edição. No caso do vinil, esse trabalho tem de considerar um suporte físico: a música será inscrita em sulcos extremamente pequenos que uma agulha precisa de conseguir percorrer.
Isso traz exigências concretas. Certos graves e sons agudos podem exigir ajustes para evitar problemas de leitura ou distorção. Até a quantidade de música colocada em cada lado influencia o resultado.
Foi aqui que a pergunta começou a ganhar outra dimensão. Quando comparamos uma edição em vinil com uma edição digital, podemos estar a ouvir versões preparadas de maneira diferente. A preferência por uma delas pode ter muito que ver com as decisões tomadas antes de a música chegar aos nossos ouvidos. A masterização ajuda a explicar essas diferenças e o equipamento de reprodução também participa no resultado.
Hugo descreve o resultado como mais confortável, mais quente e mais pessoal. São palavras que também dizem muito da experiência de quem ouve. E depois há tudo o que acontece à volta da música. Pegar na capa, retirar o disco, pousar a agulha, acompanhar um lado até ao fim. Hugo resumiu essa relação numa frase: “Nós, num telemóvel ou num computador, temos a música infinita. Num formato físico, temos um princípio e um fim.”
Na Grama Pressing, esse objeto passa por uma inspeção visual individual e por escutas de controlo ao longo da produção. O cuidado tem uma explicação simples: “Pode ser o primeiro disco que alguém compra”, lembrou Hugo.
Saí da fábrica com uma maneira diferente de olhar para esta discussão. O formato, por si só, não decide qual é a melhor edição de um álbum. Há escolhas técnicas, equipamentos e preferências pelo meio. E há um disco que escolhemos guardar, uma capa que reconhecemos e o tempo que decidimos dedicar-lhe. Perceber como tudo isso se constrói tornou o vinil, para mim, ainda mais interessante.
Pode rever a reportagem da Grama Pressing neste link.
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