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A opinião de Eduardo Tavares
Não é a sua campanha que foi alterada, é o mundo
23 de Abril de 2021
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Não é a sua campanha que foi alterada, é o mundo
Eduardo Tavares
VP Creative Director for Craft & Design AREA 23
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Recentemente criámos uma campanha para um problema sério de saúde infantil. A ideia era simples, criar um personagem que representaria o principal responsável pela doença. Ele seria um tipo de vilão daqueles que está sempre a se mascarar para causar o mal sem ser apanhado.


O cliente: uma ONG que usa hip hop e a cultura afro-americana para falar dos problemas de saúde das crianças.

 

Música? Um jingle, claro. E porque não, um rap? O nosso personagem poderia “dar todo o briefing” enquanto cantava um rap cheio de malícia.

 

O cliente adorou a ideia. Não só adorou, como telefonou para um dos principais integrantes do board da ONG: Darryl DMC McDaniels, um dos fundadores do RUN-D.M.C, grandes rappers dos anos 80. O DMC também amou o projeto e gravou um jingle sensacional em menos de dois dias.

 

Tudo pronto. Vamos arrancar?

 

Calma.

 

Agora a nossa network tem uma nova plataforma. Um comitê responsável por tratar sobre diversidades e todas as campanhas que as envolvam.

 

Corre, monta deck, apresenta o cliente, explica o briefing e conta a ideia toda com belos slides.

 

Dois dias depois vem o feedback: “campanha considerada arriscada, por utilizar uma voz afro-americana para retratar um vilão”.

 

Caos! Depressão! Reclamação e desespero! Afinal, o nosso próprio cliente, fazia parte da cultura hip-hop e do universo da diversidade. E ele não via a campanha dessa forma. O nosso comitê só podia estar equivocado.

 

Bora conversar com os representantes do comitê para tentar entender melhor.

 

Dos 10 integrantes do grupo, mais da metade tiveram a mesma impressão: o vilão, apesar de ser um boneco animado sem feições humanas, passava o filme todo a se gabar de suas maldades, usando um ritmo e a voz de um homem preto.

 

E isso, aos olhos de uma comunidade constantemente preocupada em manter a fragilidade do mínimo de igualdade, conquistada às custas de muito sofrimento e luta, é um risco que não se pode correr. Especialmente ao se falar com crianças. Colar um vilão e seus atos a esta voz seria muito arriscado. 

 

Ok, ouvindo com atenção e sem o escudo da má vontade, fazia mesmo sentido. Mas já não íamos a tempo de gravar outra música, ou mesmo de buscar outra voz com tanto reconhecimento quanto essa.

 

Eis que vem a ideia? “Ei, mas ele não está sempre se disfarçando? Ele não é uma espécie de mutante, transmorfo sem forma? E se ele também tivesse várias vozes diferentes? Princesa da Disney, miúdo pré-adolescente, bobalhão tipo desenho infantil, herói de filme de ação, e, por que não, rapper afro-americano quando lhe convém?”

 

Regrava aqui, corta lá, substitui acolá. E não é que funcionou? Agora ficou evidente que o vilão não é apenas perigoso em razão de todos os seus disfarces, mas também em como ele pode nos enganar das mais diversas formas e vozes.

 

Aprovado pelo comitê. Final feliz.

 

Nesse cenário sim, onde felizmente houve uma solução simples. Mas ela poderia não existir. E fosse esse o caso, por mais doloroso que pudesse ser para nós criativos, esse problema teria sim de ser repensado e respeitado.

 

Um mundo onde todas as opiniões têm o mesmo valor, especialmente àquelas vindas dos que tanto lutaram para que elas fossem ouvidas, é muito importante. Essa sim é uma ideia que merece ir para a rua.


 

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