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Uma das insígnias emblemáticas da indústria da moda reinventou-se: deixou de olhar apenas para vendas e campanhas e passou a medir o amor pela marca, as pesquisas, os atributos e os sentimentos do consumidor em tempo real.
Durante anos, a Gap parecia uma daquelas marcas que toda a gente conhecia, mas já quase ninguém desejava. Tinha sido gigante nos anos 90, sinónimo do “casual americano”, do denim democrático, da t-shirt branca perfeita e daquele minimalismo limpo que parecia dizer “não estou a tentar demasiado”. Depois veio a longa travessia do deserto. O redesign falhado do logótipo em 2010 transformou-se em case study de como uma marca pode perder o pulso ao seu próprio público. A concorrência da Zara e da H&M acelerou. Os centros comerciais perderam força. A Gap entrou no ciclo perigoso dos descontos, da indefinição e da irrelevância.
E, no entanto, cá estamos a falar da Gap outra vez. A pergunta não é apenas “como é que a Gap recuperou?”. A pergunta para quem trabalha em agências, publicidade e estratégia é mais interessante: como é que uma marca dada como “morta” voltou a parecer culturalmente viva e quase triplicou o seu valor em bolsa em cerca de três anos?
A resposta começa com uma mudança de liderança. Em 2023, a Gap Inc. foi buscar Richard Dickson, ex-Mattel, um dos executivos associados à reinvenção de Barbie, para assumir o cargo de CEO a partir de agosto desse ano. Não é um detalhe. A Gap não contratou apenas um gestor de retalho: contratou alguém que vinha de uma escola onde propriedade intelectual, nostalgia, fandom e cultura pop são tratados como ativos de negócio.
O “molho secreto” parece simples, mas é raro: a Gap deixou de tentar ser tudo para todos e voltou a ser Gap. Menos ruído. Mais códigos próprios. Mais denim. Mais anos 90. Mais silhuetas limpas. Mais memória afetiva, mas sem parecer ”museu”. A nostalgia aqui não foi usada como filtro sépia: foi usada como motor de relevância. O passado foi matéria-prima para o presente.
A transformação também não foi só estética, mas também operacional. A empresa fechou lojas, limpou o inventário, reduziu a dependência de promoções e começou a recompor margens. Em março de 2026, a Gap Inc. reportou um crescimento de 2% nas vendas líquidas em 2025, comparáveis positivas pelo oitavo trimestre consecutivo, lucro operacional anual de 1,1 mil milhões de dólares e margem operacional de 7,3%. Para uma marca que passou anos a ser descrita como ultrapassada, isto já não é apenas “boa campanha”. É turnaround.
Mas o ponto mais interessante para a publicidade está no casamento entre cultura e medição. A Gap percebeu que “brand love” não é uma palavra bonita para pôr num slide: é um sistema de gestão. Richard Dickson tem falado de dashboards que medem amor pela marca, pesquisas, atributos e sentimento do consumidor. Isto é o contrário do marketing feito à fé. É criatividade com radar ligado.
Hoje, este radar inclui Google Trends, social listening, volume de pesquisa, sentimento de fãs, comportamento de Gen Z digital natives, performance de campanhas, vendas por categoria e, sim, até valor de mercado. A cultura tornou-se mensurável não para matar a intuição criativa, mas para a afiar.
O caso “Better in Denim” mostra isso com clareza. A campanha com Katseye, construída para circular nas plataformas onde a Gen Z realmente presta atenção, não ficou apenas no território do “viral bonito”. Segundo a cobertura da imprensa económica, a campanha gerou milhares de milhões de impressões, centenas de milhões de visualizações e ajudou a impulsionar crescimento de dois dígitos em denim. A Marketing Dive também reportou que a Gap subiu para a sexta posição entre as marcas adultas de denim nos EUA, dois lugares acima de 2024.
Ou seja: a Gap não voltou porque fez “uma campanha jovem”. Voltou porque reconstruiu uma ligação entre produto, memória, plataforma e timing. Fez aquilo que muitas marcas dizem querer fazer: entrar na cultura sem parecer uma marca a pedir licença para entrar.
Também há uma lição dura aqui. A Gap só conseguiu parecer nova quando parou de fugir de quem era. Durante anos, muitas marcas tradicionais tentam rejuvenescer apagando os seus próprios códigos. A Gap fez o inverso: recuperou os seus ativos — denim, branco, azul, básico, cool sem esforço — e tratou-os como linguagem contemporânea.
Para agências, isto é ouro. A reinvenção não precisa sempre de uma nova personalidade. Às vezes precisa de memória bem editada. De consistência. De menos gimmick. De mais produto. De campanhas com ritmo social, mas com uma ideia de marca por trás. De dados que escutam o fandom antes de o briefing o domesticar.
No mercado, a recuperação também aparece. A capitalização bolsista da Gap rondava cerca de 8 mil milhões de dólares em maio de 2026, com variações conforme a fonte e o momento da cotação. Fontes de mercado acompanham uma valorização significativa face aos níveis de 2023, embora o número exato dependa da data usada como ponto de partida.
A Gap ainda não ganhou a guerra. Athleta continua a ser um ponto fraco e o retalho vive pressionado por tarifas, inventário, consumo e concorrência. Mas a marca voltou a ter algo que não se compra em media: tensão cultural. Voltou a ser observada, procurada, copiada e principalmente discutida. Ah, o som doce do Buzzzzz. E talvez essa seja a maior lição: as marcas não morrem quando envelhecem. Morrem quando deixam de ser lidas pelo seu tempo.
A Gap voltou, porque aprendeu a escutar o agora sem esquecer-se da sua história. E isso, para uma indústria obcecada com o próximo trend, é uma bela provocação: às vezes, o futuro está mesmo ali, dobrado numa velha camisa branca e num par de jeans.
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