E se o sucesso estiver a atrasar a sua carreira?

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A opinião de Sílvia Nunes
E se o sucesso estiver a atrasar a sua carreira?
18 de Setembro de 2026
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E se o sucesso estiver a atrasar a sua carreira?
Sílvia Nunes
Senior Director Michael Page | Founder Profiler Podcast
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Ao longo da vida profissional, aprendemos a perseguir o sucesso. Trabalhamos para obter resultados, ganhar reconhecimento, alcançar promoções e construir uma reputação de competência. É natural. O sucesso, de alguma forma, valida o nosso esforço e reforça a nossa confiança.


Mas existe uma questão que raramente colocamos: e se o sucesso estiver, paradoxalmente, a atrasar a nossa carreira? À primeira vista a ideia parece contraditória. Afinal, quem não quer ter sucesso? O problema não está no sucesso em si. Está no conforto que frequentemente o acompanha.


Quando nos tornamos bons numa função, começamos a sentir controlo. Conhecemos os processos, dominamos o contexto, antecipamos problemas e sabemos como gerar resultados. Aquilo que antes exigia aprendizagem constante passa a fazer parte da rotina. Sentimo-nos confiantes. E é precisamente nesse momento que surge o risco   de confundirmos desempenho com crescimento. Nem sempre aquilo que fazemos bem é aquilo que mais nos desenvolve. Nem sempre os ambientes onde temos mais sucesso são aqueles onde estamos a aprender mais. E nem sempre permanecer numa posição confortável contribui para a nossa evolução a longo prazo.


Ao longo dos anos, tenho observado profissionais extremamente competentes que deixaram de crescer não por falta de talento, mas porque se tornaram demasiado valiosos naquilo que já faziam. As organizações precisavam deles exatamente onde estavam. E eles próprios passaram a evitar oportunidades que colocassem em causa o domínio que tinham conquistado. É uma armadilha compreensível.


No entanto, talvez esta seja uma das questões mais importantes do nosso tempo. Os nossos pais tinham frequentemente uma profissão para a vida. Muitos trabalharam décadas na mesma empresa, no mesmo setor ou em funções relativamente semelhantes. A estabilidade era uma expectativa razoável. A nossa realidade é diferente. Estamos a viver mais anos. Vamos trabalhar durante mais tempo. As profissões estão a evoluir a uma velocidade sem precedentes. Novas competências surgem continuamente. Setores inteiros transformam-se. O que sabemos hoje pode não ser suficiente para aquilo que será exigido daqui a dez anos. Neste contexto, uma carreira deixou de ser apenas uma carreira. Para muitos de nós, será necessário construir várias versões da mesma carreira ao longo da vida. Em alguns casos, será mesmo necessário construir uma segunda ou terceira carreira profissional.


A verdade é que, isto exige algo que nem sempre associamos ao desenvolvimento profissional. Exige coragem. A coragem de abandonar uma identidade construída ao longo de anos. A coragem de deixar de ser especialista para voltar a aprender. A coragem de entrar numa sala onde já não somos a pessoa que mais domina o assunto em questão. A coragem de aceitar que o sucesso do passado não garante relevância no futuro.


É aqui que muitas carreiras ficam bloqueadas. Não por falta de capacidade, mas por excesso de conforto. Quando uma pessoa se torna reconhecida numa determinada área, a mudança passa a implicar uma perda temporária de estatuto. De repente, deixa de ser a referência. Deixa de ter todas as respostas. Volta a fazer perguntas básicas. Volta a cometer mais erros. Volta a sentir-se aprendiz. Nesses momentos, é fácil interpretar a insegurança como um sinal de incapacidade. Mas a verdade é que, crescemos menos quando tudo nos parece familiar.


Talvez por isso valha a pena, de tempos a tempos, colocar  a seguinte questão:  Continuo a crescer ou apenas me tornei eficiente? A diferença é importante. As organizações precisam de pessoas eficientes, mas o futuro pertencerá cada vez mais às pessoas capazes de se reinventarem. Isto não significa mudar constantemente de emprego ou abandonar tudo o que construímos. Significa apenas evitar que o sucesso de hoje se transforme numa prisão confortável amanhã.


Numa vida profissional que poderá durar quarenta ou cinquenta anos, a capacidade mais valiosa poderá não ser aquilo que sabemos fazer agora. Poderá ser a coragem de recomeçar quando necessário. As carreiras extraordinárias não são construídas apenas por quem alcança o sucesso, são também construídas por quem tem a coragem de voltar a aprender depois de o alcançar.

 

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