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Há momentos em que o futuro não chega com estrondo, mas com um silêncio estranho. Não anuncia revoluções, não pede opinião, não aguarda alinhamento estratégico. Simplesmente começa a funcionar melhor do que o presente.
A discussão recente em torno da Inteligência Artificial Geral, protagonizada por líderes de empresas que estão a definir o ritmo do mundo, é um desses momentos. Não porque a AGI esteja garantida para amanhã, mas porque o impacto prático da inteligência artificial já ultrapassou o nosso vocabulário habitual de mudança.
Em Portugal, continuamos a observar este fenómeno com uma curiosidade educada, quase antropológica, como se se tratasse de algo relevante, mas distante. Como se houvesse uma espécie de exceção geográfica ou cultural que nos permitisse assistir sem participar. A realidade é menos confortável. A inteligência artificial não está a chegar ao mercado português. Está a infiltrar-se nele, tarefa a tarefa, decisão a decisão, muitas vezes sem que as organizações se deem conta.
A obsessão com datas para a AGI é, para nós, um falso problema. Se surgir em 2026 ou no final da década é uma discussão interessante para investigadores e investidores. Para empresas e profissionais portugueses, a questão relevante é outra: que parte do nosso trabalho atual já pode ser feita, hoje, de forma mais rápida, mais barata e, em muitos casos, com melhor qualidade por sistemas artificiais. A resposta, embora raramente dita em voz alta, é incómoda.
Há algo de profundamente revelador no facto de algumas das empresas mais avançadas do mundo já não escreverem código como antes. O código continua a existir, mas deixou de ser o centro da atividade intelectual. Tornou-se matéria-prima, não obra final. O valor deslocou-se para a formulação do problema, para o julgamento, para a capacidade de orientar sistemas cada vez mais competentes. Isto deveria ser um sinal claro para organizações que ainda confundem transformação digital com a acumulação de ferramentas ou com o reforço de equipas para fazer mais do mesmo, apenas com interfaces mais modernas.
O crescimento exponencial de receitas observado em empresas de IA não resulta de um golpe de sorte nem de uma genialidade isolada. Resulta de algo mais estrutural: a possibilidade de escalar capacidade cognitiva. Quando pensar, analisar e decidir deixam de ser atividades rigidamente humanas e passam a ser amplificáveis por infraestrutura, as regras económicas alteram-se. Para um país habituado a competir por eficiência marginal, esta mudança representa uma quebra abrupta de lógica. A competição já não se faz apenas por custo ou dimensão, mas por velocidade mental.
No mercado de trabalho, o desconforto é ainda maior. A previsão de que uma parte significativa dos empregos white-collar de entrada possa desaparecer, soa alarmista apenas se ignorarmos a natureza desses empregos. Muitos foram desenhados como etapas intermédias, espaços de aprendizagem lenta, sustentados mais por tradição do que por necessidade real. A inteligência artificial não elimina o talento. Elimina a espera. Elimina a ideia de que alguém tem de passar anos a executar tarefas básicas antes de ser autorizado a pensar.
O novo critério de valor profissional é exigente, mas claro. Capacidade de julgamento, autonomia intelectual, responsabilidade pelas decisões. Não depende da idade, do título ou do percurso académico. Depende da disposição para usar ferramentas avançadas para elevar o nível do próprio pensamento, em vez de proteger tarefas que já não fazem sentido.
Portugal não liderará a próxima vaga de chips, nem a ciência experimental que exige infraestruturas massivas e energia abundante. Insistir nessa fantasia seria um erro. A oportunidade está noutro lugar: na aplicação séria e consequente da inteligência artificial a setores reais, com problemas reais, onde o contexto importa. Menos inovação performativa. Mais impacto silencioso.
A dimensão geopolítica desta transformação acrescenta uma camada de complexidade raramente discutida. Quando chips passam a ser tratados como ativos estratégicos, quase militares, torna-se evidente que entrámos numa nova fase. A Europa, e Portugal em particular, tem pouca influência direta neste tabuleiro. Mas tem escolha. Pode limitar-se a regular e a esperar, ou pode aprender a jogar bem com as cartas disponíveis.
No fim, a maior ameaça não é tecnológica. É cognitiva. É a tentação de tratar a inteligência artificial como mais uma tendência, mais um tema para conferências, mais um capítulo num plano estratégico que nunca chega a alterar decisões reais. O que está em causa não é uma ferramenta. É uma mudança de regime. Económico, organizacional e intelectual.
A história mostra que estas mudanças raramente são confortáveis e quase nunca dão avisos repetidos. Quem percebe cedo não fica imune, mas ganha margem de manobra. Quem prefere esperar por consenso, clareza total e segurança conceptual acaba, invariavelmente, a compreender o que aconteceu quando já não há muito a fazer.
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