A geração mais (des)protegida de sempre

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A opinião de José Borralho
A geração mais (des)protegida de sempre
30 de Janeiro de 2026
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A geração mais (des)protegida de sempre
José Borralho
Chairman do Grupo One Bcam Five
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A história mostra-nos uma verdade desconfortável: raramente são as palavras que mudam o mundo. Há uma frase antiga, reciclada ao longo da História, que volta a fazer um sentido desconfortável: “Tempos bons criam homens fracos. Homens fracos criam tempos difíceis”. Talvez nunca tenha sido tão atual e talvez nunca tenha começado tão cedo.


Vivemos tempos bons. Nunca houve tanto conforto, tanta proteção, tanta tecnologia, tanta facilidade. E, paradoxalmente, nunca houve tanta fragilidade emocional, tanta ansiedade precoce e tanta incapacidade de lidar com frustração. 


A discussão sobre a proibição das redes sociais para menores é apenas o sintoma visível de algo muito mais profundo: estamos a criar crianças para o conforto, não para o mundo. França, Austrália, Reino Unido, Dinamarca seguem o mesmo impulso: proibir, limitar, bloquear. A intenção é nobre. A execução é confusa. E o debate, perigosamente superficial. 


Quando se pergunta como estas proibições vão funcionar, instala-se o silêncio. Fala-se em “verificação robusta da idade”, mas evita-se explicar o mecanismo. Porque explicar implica assumir o caos. E proibir sem método é legislar por desespero. Verificar idade significa recolher dados. Recolher dados significa RGPD. RGPD significa responsabilidade legal, risco, vigilância e armazenamento sensível.


Estamos a tentar proteger crianças de algoritmos… entregando-as a outros algoritmos. Estamos a combater a exposição digital… com mais exposição digital. Estamos a gritar “privacidade!” enquanto normalizamos sistemas de identificação invasivos. Quem valida a idade? A plataforma? O Estado? Um intermediário “neutro”? Com documentos? Biometria? Identidade digital europeia? E quando há fuga de dados? Quem responde? E quando o menor acede sem conta? Fingimos que não acontece?


A verdade nua e crua é esta: ninguém tem uma solução tecnicamente limpa, eticamente sólida e juridicamente pacífica. E legislar sem isso é apenas um exercício de boa consciência política. Não estaremos a projetar a ilusão do controlo num mundo contornável? Qualquer adolescente com dois neurónios digitais sabe mentir na idade, criar um email alternativo, usar o telefone de um amigo ou consumir conteúdos sem login. A proibição não elimina o comportamento, apenas o empurra para fora do radar. E quando algo sai do radar, perde-se o mais importante: acompanhamento, conversa, orientação. A clandestinidade nunca educou ninguém. Apenas afasta.


Mas talvez o maior problema não esteja nos jovens. Talvez esteja nos adultos que fingem surpresa. Sim, os adultos, os pais que gritam “direitos” e praticam incoerência. Os pais indignados, que dizem que o Estado está a violar os direitos dos filhos. Que isto é censura. Que as crianças têm direito ao acesso. Curiosamente, são muitas vezes os mesmos pais que criam as contas em nome dos filhos, usam os seus próprios dados, mentem deliberadamente às plataformas. Defendem liberdade… através da fraude. Criticam vigilância… enquanto entregam os filhos aos algoritmos. Falam de direitos… mas fogem aos deveres.


O verdadeiro escândalo não é a lei. É a normalização da incoerência educativa. Nunca se deu tanto às crianças. Nunca se exigiu tão pouco. Damos tecnologia antes de dar maturidade. Damos estímulo antes de dar estrutura. Damos conforto antes de dar resiliência.


Confundimos acesso com progresso. Confundimos ocupação com desenvolvimento. Confundimos silêncio com vazio. Mas há uma diferença brutal e ignorá-la tem consequências: há tecnologia que desenvolve e há tecnologia que estupidifica. Uma desafia, ensina, constrói pensamento. A outra anestesia, fragmenta, vicia e distrai, limita o bom senso. E quando a distração se torna permanente, a capacidade de enfrentar a realidade desaparece.


Com tanta proteção, estamos a criar uma geração protegida de tudo, menos da vida. Protegida da frustração. Protegida do erro. Protegida do desconforto. E agora espantamo-nos com a ansiedade, a dependência, a incapacidade de esperar, a fragilidade emocional.


As redes sociais não criaram este problema. Apenas o amplificaram. Porque homens fracos e adultos frágeis, não formam crianças fortes. Formam crianças dependentes de estímulo, validação e aprovação constante. Logo, o debate não deveria ser sobre “proibir ou permitir”. Deveria ser sobre educar ou anestesiar.


Nenhuma verificação de idade substitui um exemplo coerente. Nenhuma lei substitui uma conversa difícil. Nenhum bloqueio tecnológico prepara alguém para o mundo real. Se queremos crianças fortes em tempos difíceis, temos de aceitar algo impopular: educar dá trabalho. Exigir gera conflito. Preparar implica desconforto. Mas é isso ou continuar a criar gerações incapazes de lidar com a vida sem um ecrã a amortecer o impacto.

Talvez o problema não seja vivermos tempos bons. Talvez seja não sabermos o que fazer com eles. E a História já nos avisou onde isso acaba.


Neste debate, as marcas não são figurantes. São parte do enredo. Durante anos, ajudaram a construir plataformas desenhadas para capturar atenção, prolongar uso e criar dependência (inclusive em idades onde ainda não existe maturidade emocional para lidar com isso). Fingir neutralidade agora é conveniente, mas é também uma forma de cumplicidade. O seu papel não pode limitar-se a “cumprir a lei”. Cumprir a lei é o mínimo ético, não é visão nem responsabilidade social. 


Num mundo onde os algoritmos educam tanto quanto a escola e o design influencia comportamento, as empresas têm de assumir que cada decisão técnica é também uma decisão humana. Cabe às marcas escolher se querem alimentar a lógica da anestesia - mais tempo de ecrã, mais estímulo, menos consciência - ou se querem ajudar a preparar crianças e jovens para o mundo real, promovendo uso consciente, limites claros, pausas, fricção saudável e conteúdos que desenvolvam pensamento, e não apenas reação.


Mais do que ferramentas de controlo parental, o que falta é coragem institucional para dizer “chega”, para desenhar experiências que libertem em vez de prender, que formem em vez de distrair. As marcas que o fizerem talvez percam alguns cliques no curto prazo, mas ganharão algo bem mais raro: confiança, legitimidade cultural e futuro.


Porque, no fim, a pergunta que ficará não é tecnológica nem legal. É moral: quando souberam que isto estava a afetar crianças, que lado escolheram? E essa resposta, tal como na educação, não se declara. Vê-se.

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