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Tive um sonho.
Ou talvez tenha sido mais do que isso. Um vislumbre, um aviso, uma travessia. Fui ao Futuro.
Não num filme, nem num exercício de imaginação criativa. Fui mesmo, com a alma em sobressalto, como quem atravessa um espelho e acorda do outro lado da realidade. E não gostei do que vi.
O futuro é brilhante. Asséptico. Rápido. Tão rápido que já ninguém se detém. Tão eficiente que já ninguém erra. Tão perfeito que já ninguém sente.
Vi crianças a rir para ecrãs que lhes devolviam risos programados. Vi adultos a confessarem segredos íntimos a assistentes virtuais. Vi famílias sentadas à mesa, mas com cada um mergulhado no seu próprio avatar. Vi escolas onde se aprendia a manipular emoções em vez de vivê-las. Vi empresas onde a criatividade já não era celebrada, mas sim prevista, escalada, automatizada. Vi a intimidade tornar-se produto. A verdade tornar-se variável. E o humano… tornar-se opcional.
Era tudo funcional. Tudo instantâneo. Tudo disponível. E, no entanto, era tudo profundamente vazio. Voltei com uma inquietação insuportável no peito.
Porque percebi que o mais perigoso no futuro não é o que a inteligência artificial pode fazer.
É o que nós deixamos de querer fazer.
No futuro que vi, já ninguém fazia perguntas difíceis. As respostas estavam todas ali, perfeitas, rápidas, redondas, geradas por máquinas que conheciam as nossas emoções melhor do que nós próprios. Mas havia um vazio profundo. Porque a verdade, sem dúvida, é um eco. E o conhecimento sem pergunta é um enredo morto. Porque quando deixamos de fazer perguntas, começamos a viver em simulação.
Senti falta da dúvida. Do silêncio incómodo. Da curiosidade desobediente. Senti falta da incerteza, desse espaço fértil onde nasce a consciência.
No mundo do futuro, saber perguntar era uma arte em extinção. E, sem ela, não havia filosofia, nem discernimento, nem ética. Só fluxos. Só conteúdos. Só eficiência. E então entendi: a verdadeira revolução não será sobre a inteligência das máquinas. Será sobre a desistência da nossa própria inteligência.
No futuro, tudo acontecia depressa. As emoções surgiam como notificações. As decisões eram tomadas em segundos, baseadas em dados, previsões, algoritmos. A vida já não se sentia, processava-se. A velocidade matou a contemplação. E com ela, o sentido. Vi pessoas a escolher relacionamentos por compatibilidade emocional simulada. Vi jovens a criar identidades artificiais mais interessantes do que a sua realidade. Vi líderes a tomarem decisões com base em dashboards, sem sequer olharem nos olhos das suas equipas. Tudo era eficiente. Mas nada era verdadeiro. E perguntei-me: Para onde foi o tempo de parar? O tempo de sentir sem objetivo? O tempo de olhar o outro sem ser para o analisar? O tempo humano foi substituído pelo tempo útil. Mas a utilidade, quando se torna absoluto, torna-se tirana. E o que vi no futuro foi uma humanidade a correr… sem saber porquê.
Fiquei chocado com o que vi. Não com a tecnologia em si, essa era brilhante. Mas com a ausência de resistência. Com o conformismo. Com a indiferença. A ética era um luxo. Uma nota de rodapé nos manuais das startups. Vi campanhas que simulavam emoções perfeitas sem qualquer verdade por trás. Vi marcas a criarem influenciadores virtuais com biografias mais coerentes do que muitos humanos. Vi comunidades inteiras a seguir avatares porque "eles nunca falham", "estão sempre lá", "sabem o que precisamos de ouvir". A ética não tinha desaparecido, apenas tinha deixado de importar. E perguntei-me: Se a emoção for um produto… o que é que ainda é sagrado? Se a confiança for um algoritmo… o que é que ainda é real? Se tudo for possível de simular… o que é que ainda vale viver?
No futuro, já ninguém distinguia o verdadeiro do falso. Porque o falso era mais confortável. Mais constante. Mais conveniente. E percebi: a questão não é se a IA vai tomar decisões por nós. É se nós vamos continuar a querer decidir.
Vi pessoas a apaixonarem-se por avatares. Vi relações duradouras entre humanos e inteligências artificiais. E o mais assustador? Vi amor. Vi cuidado. Vi escuta, simulada, mas convincente.
Porque o avatar nunca se distrai. Nunca está cansado. Nunca te interrompe com os próprios traumas. Mas também nunca viveu um amor. Nunca chorou por perder alguém. Nunca teve medo de falhar. E então entendi que a intimidade tinha sido reprogramada. A presença tornara-se obsoleta. Entendi que a maior ameaça não é a IA aprender a parecer humana. É nós deixarmos de querer a complexidade do humano real. O erro. A ausência. A contradição. A espera. Porque amar um avatar é fácil. Amar uma pessoa é uma escolha diária, imperfeita, corajosa. E no futuro, a coragem estava em escassez.
O futuro que vi não era distópico, era sedutor. E por isso, perigosíssimo. Era bonito. Agradável. Sem dor. Mas era vazio de alma. E senti medo. Porque percebi que não vamos ser vencidos pela tecnologia. Vamos ser seduzidos por ela. A IA não precisa de destruir a humanidade. Só precisa de nos dar tudo aquilo que desejamos… sem que tenhamos de sentir o que nos custa.
Voltei deste sonho (ou aviso) com o coração apertado e a alma em chamas.
Voltei. E trouxe perguntas. E trouxe esta missão: não deixar que a velocidade apague o pensamento. Não deixar que a conveniência substitua a consciência. Não deixar que o conforto do falso suplante a beleza imperfeita do verdadeiro. Porque a pergunta que me ficou gravada foi esta: Se podemos simular tudo… o que ainda merece ser vivido?
Estamos a educar crianças para um mundo onde tudo será possível. Mas será que lhes estamos a ensinar a distinguir o que é valioso? Estamos a preparar profissionais para um mercado de decisões rápidas e emoções programadas. Mas será que lhes estamos a ensinar a pausar, a perguntar, a resistir? Estamos a usar a tecnologia para ensinar… Mas será que ainda ensinamos o que nos torna humanos? Voltei do futuro. E não gostei do que vi.
Mas acredito que ainda podemos escolher outro caminho. Um caminho onde a inteligência não substitui a consciência. Onde a emoção não é apenas uma experiência de utilizador, mas um risco partilhado. Onde a dúvida ainda é um acto de coragem. Onde a ética não é luxo, mas fundação.
A IA é inevitável. Mas a nossa rendição não é.
Sim, o futuro que vi pode não estar tão longe. Mas o que me faz escrever não é o medo. É a possibilidade. Porque se ainda conseguimos olhar o mundo com espanto, com inquietação, com esse desconforto que antecede a escolha…então ainda temos margem. Ainda temos chão para reverter o rumo. Por isso, deixo aqui, não um plano fechado, mas uma bússola. Um conjunto de princípios, perguntas e ações que talvez possam impedir que o sonho distorcido que vivi se transforme na nossa nova normalidade.
E começo pela necessidade de alfabetizar a dúvida, ensinar a perguntar. O futuro será dos que souberem fazer boas perguntas, não dos que decorarem boas respostas. Precisamos de resgatar nas escolas, empresas e casas a coragem da interrogação. Ensinar crianças a perguntar “porquê?” sem medo. Ensinar adultos a perguntar “para quê?” antes de agir. Ensinar líderes a perguntar “com quem?” antes de decidir. A primeira estratégia não é técnica, é filosófica: instaurar uma nova literacia da dúvida. Criar espaços onde errar seja permitido. Onde não saber seja ponto de partida. Onde a curiosidade volte a ser sinal de inteligência, e não de distração.
Depois é preciso tornar a ética o fundamento, não apenas o conceito. Não podemos continuar a discutir ética como um “extra”, um apêndice dos projetos. A ética tem de ser fundação: no design, no código, nas campanhas, nas escolas. Antes de se perguntar “podemos fazer isto?”, temos de perguntar: “devemos fazer isto?”, “o que esta decisão está a ensinar sobre nós enquanto espécie?”
As empresas precisam de conselhos de ética verdadeiros, independentes. Os professores precisam de ferramentas para discutir dilemas morais com os alunos. Os consumidores precisam de consciência, para saber que cada clique é um voto.
Precisamos abrandar para sentir, voltar a dar tempo ao humano. Se tudo for imediato, nada terá impacto. Precisamos urgentemente de reabilitar o tempo lento. O tempo de contemplar, de digerir, de parar. Criar pausas deliberadas na escola, no trabalho, nas relações. Estratégia prática? Implementar momentos não-produtivos no dia: 10 minutos de silêncio; 1 hora sem ecrãs; 1 conversa sem distrações; 1 tarefa feita devagar, com atenção plena. A presença é a nova resistência. Quem consegue estar verdadeiramente presente, já está fora da engrenagem do algoritmo.
Há que criar filtros emocionais, não só digitais. No futuro que vi, todos tinham filtros digitais. Mas quase ninguém tinha filtros emocionais. Temos de educar para a leitura crítica das emoções, para distinguir o que é genuíno do que é desenhado para manipular. Saber que um avatar pode chorar sem sentir. Saber que uma campanha pode emocionar sem compromisso. Saber que um post viral pode ser uma mentira amplificada. A nova inteligência emocional exige consciência digital. Propostas? Ensinar nas escolas a diferença entre emoção sentida e emoção simulada, criar plataformas com alertas de manipulação emocional, como temos hoje com fake news, ter conversas difíceis sobre o que consumimos em família, nas empresas, na comunicação social.
Temos de preservar o que é inimitável, o humano. Há coisas que não podem, nem devem, ser replicadas. A falha. O medo. O amor sem condições. A imperfeição bonita do gesto sincero. Precisamos, como sociedade, de criar espaços de humanidade deliberada: Cafés onde se proíbem avatares; Retiros sem tecnologia; Empresas com “dias da falha” para celebrar o erro criativo; Famílias que priorizem jantares sem ecrãs. Porque se não fizermos isso, o falso vai ganhar pelo conforto. E quando o falso for mais fácil de amar do que o real…acabamos por esquecer o que é o amor de verdade.
É necessário recuperar o valor do esforço. O futuro que vi premiava o imediato. Mas tudo o que realmente transforma… exige esforço. Temos de voltar a ensinar que há beleza na conquista lenta. Na espera. Na frustração que antecede a superação. Queremos mudar o rumo? Então que seja com resiliência, e não só com cliques.
Vamos assumir a autoria. Tu, eu, todos. O que mais me perturbou no futuro não foi o avanço da tecnologia. Foi a rendição da vontade humana. O maior risco não é a IA decidir por nós. É nós deixarmos de decidir, por preguiça, por medo, por conveniência. Se queremos um futuro diferente daquele que vi, temos de recuperar esta ideia: somos autores, não apenas utilizadores. E isso implica responsabilidade. Implica ação. Implica uma escolha contínua pela consciência.
Voltei do sonho. Mas o sonho ainda pode ser só isso, um aviso, não um destino.
O futuro que queremos não vai acontecer sozinho. Somos parte desta escolha.
Podemos continuar no modo automático. Ou podemos assumir o comando. Podemos aceitar um mundo previsível, mas artificial. Ou podemos lutar por um mundo imperfeito, mas humano.
E tu, em que futuro queres viver? Porque o verdadeiro fim do sonho…é o início da decisão.
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