
Newsletter
Pesquisa

Em 1986, Ulrich Beck* falou da “sociedade de risco” como reflexo da modernidade, em que a produção de bens e o progresso passa a vir acompanhada de riscos globais (ambientais, tecnológicos, económicos) que escapam ao controle das instituições clássicas como o Estadonação.
Em Portugal os eventos climáticos extremos já deixaram de ser improváveis para se tornarem uma rotina. A imprevisibilidade do seu impacto, a incerteza estrutural, a invisibilidade de algumas consequências e a insegurança das populações, tornam-se uma experiência democrática comum: as empresas param, os empregos tornam-se mais incertos, as seguradoras e os Estados revelam limites para cobrir desastres e cresce a tentação de estados de exceção para gerir riscos extremos.
Os números recentes deveriam ser um choque de realidade para empresas e decisores. Só o “comboio de tempestades” de final de janeiro e início de fevereiro deverá somar mais de 500 milhões de euros em danos indemnizáveis cobertos por seguros, com mais de 115 mil sinistros participados, sobretudo em habitação, comércio, indústria, automóvel e património cultural. Ainda assim, a própria Associação Portuguesa de Seguradores sublinha o “défice de proteção” no país, lembrando que grande parte das famílias e empresas continua sem cobertura adequada. Em paralelo, mas em época estival oposta, estimativas apontam para cerca de 377 milhões de euros de custo económico dos incêndios florestais em 2023 e 67 milhões de euros em prejuízos na floresta em 2024, num ano em que arderam 137 mil hectares.
Se olharmos para a saúde pública, as ondas de calor deixaram de ser uma curiosidade meteorológica para se tornarem uma ameaça silenciosa. A vaga de calor de julho de 2025 terá provocado mais 264 mortes em Portugal continental, com impacto agravado na população mais idosa. Ao mesmo tempo, a seca de 2022 foi uma das mais severas desde que há registos, resultando na pior campanha de cereais de inverno de sempre e em quebras muito significativas em várias culturas, com produtores a reportar perdas que com frequência variaram entre os 30% e mais de 50%. Quando comparamos tempestades, incêndios, secas e ondas de calor, percebemos que as perdas físicas, económicas e em saúde não são um acaso: são um novo “custo fixo” do país.
As empresas portuguesas não podem continuar a tratar estes eventos como fatalidades episódicas ou inevitabilidades. Os referenciais internacionais apontam para a integração do risco climático na governação corporativa: avaliação de risco, planos de contingência, diversificação de cadeias de fornecimento, localização crítica de ativos, autonomia energética, critérios ESG e transparência no reporte de riscos materiais.
Apesar de sabermos há anos destes perigos, foi preciso chegar aos acontecimentos mais recentes para surgir a proposta sobre o Fundo de Catástrofes. O Governo anunciou a intenção de criar, em articulação com o regulador, um mecanismo capitalizado pelos seguros de imóveis e equipamentos e por resseguro, concebido como extensão do antigo Fundo Sísmico. Em paralelo, corretores e seguradoras defendem, no parlamento e no espaço público, um fundo de catástrofes naturais com participação ativa do Estado e das seguradoras, assumido como prioridade estratégica de interesse público. Há, pois, um consenso quanto à necessidade, mas ainda não quanto ao seu desenho.
Um verdadeiro Fundo de Catástrofes, alinhado com as boas práticas internacionais, deveria ser um mecanismo nacional de resseguro de catástrofe, multirisco (tempestades, cheias, sismos, incêndios rurais, seca e até ondas de calor com impacto segurável), funcionando em parceria público-privada. A sua base financeira deveria assentar numa componente obrigatória de seguro de catástrofes associada aos seguros multirriscos de habitação e empresas, permitindo mutualizar o risco em larga escala e baixar os prémios unitários, em vez de deixar que cada segurado negoceie sozinho com o mercado global de resseguro. Este modelo aproximaria Portugal do que já existe na maioria dos países europeus.
Mas não basta criar uma “gaveta financeira”. Um bom fundo exigirá governação independente, critérios técnicos claros de ativação, transparência na utilização dos recursos e forte ligação ao pilar da prevenção. A diferenciação positiva estará nos que reduzem a exposição (por exemplo: reforço estrutural, planos de contingência, gestão florestal ativa), em articulação com o ordenamento do território e com outros instrumentos, diminuindo a vulnerabilidade e aumentando a previsibilidade e segurança.
Finalmente, uma gestão verdadeiramente integrada e multidisciplinar de catástrofes e proteção civil exige que educação para o risco, literacia securitária e atualização permanente da avaliação de riscos passem a fazer parte do quotidiano das empresas, das escolas e dos media. As alterações climáticas não são algo do futuro. Já moldam o presente e tenderão a agravar-se se falharmos na cultura e na mitigação dos seus impactos. Ou o governo e o tecido empresarial português assumem este novo contrato com o risco – integrando seguros, prevenção e adaptação – ou continuaremos a multiplicar prejuízos, pagando todos, em impostos e em vidas, o preço da inação. Não basta reagir, é preciso antecipar.
Artigos Relacionados
fechar

O melhor do jornalismo especializado levado até si. Acompanhe as notícias do mundo das marcas que ditam as tendências do dia-a-dia.
Fique a par das iniciativas da nossa comunidade: eventos, formações e as séries do nosso canal oficial, o Brands Channel.