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É tempo de resoluções. E se, para 2026, a nossa grande resolução coletiva para o espaço digital fosse uma mudança de prioridades? Em vez da habitual corrida pela próxima aplicação disruptiva, proponho que o nosso foco seja consolidar o que já construímos. Que a verdadeira mudança não esteja no brilho do que é novo, mas no compromisso de passar de uma era de expansão desenfreada para uma fase de responsabilidade e resiliência. Em 2026, a discussão mais importante não será sobre o que a Internet pode fazer, mas sobre como garantimos que tudo o que ela já faz — e de que tanto dependemos — funciona de forma segura, justa e para todos.
Esta nova fase de maturidade manifesta-se, em primeiro lugar, na regulação. A implementação de marcos como a Diretiva NIS2, o Digital Services Act (DSA) ou o aguardado AI Act não devem ser vistos como um entrave burocrático à inovação. Pelo contrário, são o equivalente às normas de construção de uma cidade: a estrutura necessária que garante que o edifício digital não colapsa sob o seu próprio peso. Ninguém questiona a necessidade de regras de segurança para um arranha-céus; da mesma forma, não podemos continuar a edificar a nossa sociedade digital sem um quadro claro que crie o verdadeiro valor de uma economia digital: a confiança, a ética e o respeito pelos direitos humanos.
Essa mesma necessidade de estrutura estende-se ao coração técnico do nosso mundo: a infraestrutura. À medida que a nossa dependência do digital se torna absoluta, a resiliência de sistemas como o DNS, a cloud e as redes de comunicação têm de ser imperativos estratégicos. A interdependência global significa que uma falha num ponto do globo tem réplicas imediatas no nosso quotidiano, como vimos por várias vezes ao longo do ano passado. A resposta está numa visão de "soberania digital sem muros", onde protegemos o nosso espaço através da colaboração e da adoção de standards de segurança que nos permitam interagir com o resto do mundo a partir de uma posição de força e confiança.
Contudo, a mais resiliente das infraestruturas tem pouco valor se não for usada por pessoas com competências para o efeito. O debate global sobre a governação da Internet, que será renovado no World Summit on the Information Society (WSIS+20), é a discussão sobre o nosso novo contrato social digital. Mas esse contrato só é válido se todos os seus signatários souberem ler as suas cláusulas. Enfrentamos um paradoxo gritante: temos uma conectividade de excelência, mas um défice persistente em competências digitais avançadas. Iniciativas que agregam e promovem a capacitação são, por isso, a condição essencial para que a transição digital seja verdadeiramente inclusiva e não uma fonte de novas desigualdades.
No centro desta capacitação está o nosso ativo mais singular: a língua portuguesa. Num mundo de modelos de Inteligência Artificial maioritariamente treinados em inglês, o nosso idioma partilhado por tantos países é um diferenciador de valor incalculável. É o que nos permite desenvolver uma IA que entende o nosso contexto cultural, que serve as nossas empresas e que não nos dilui numa monocultura digital. O espaço lusófono tem aqui uma oportunidade única de transformar a nossa língua num ecossistema de inovação que gere valor económico e social à nossa escala.
Aquilo que espero e desejo para 2026 não passa de todo por revoluções explosivas, mas de passos certos no sentido de evoluções profundas e silenciosas. Num mundo que nos tem desafiado a olhar mais para cada uma e cada um de nós e para o significado do propósito do ser humano, quando nos inundam de algoritmos artificiais, cabe-nos fortalecer alicerces, assumir responsabilidades e fazer a nossa parte, que no .PT é muito grande, de garantir que o espaço digital se desenvolve de forma segura e justa. E sobretudo que o espaço digital é um espaço democrático, inclusivo e de liberdade para todas e para todos.
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