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A opinião de Maria Miguel Ferreira
Princesas e bros
11 de junho de 2018
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Princesas e bros

Foi apresentado há duas semanas pelo Ministério da Saúde e pela Direcção-Geral da Saúde um filme para uma campanha anti-tabágica com a mensagem “Uma Princesa não fuma!”. A polémica estalou. A Associação Feminista Capazes, anunciou que ia apresentar queixa à Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG); a própria CIG lançou um comunicado de imprensa a lamentar os estereótipos usados na campanha e o Bloco de Esquerda questionou o Ministério da Saúde, pedindo que a campanha seja revista.

Ora, sabe-se que em Portugal as campanhas de sensibilização e o aumento do preço do tabaco, combinados, não têm tido um impacto significativo nos níveis de consumo. É sabido também que o consumo de tabaco tem aumentado sobretudo entre as mulheres. Perante estes dados, recorreu-se a outras evidências estatísticas para se tentar desenhar uma campanha que fosse mais eficaz. E os estudos indicam que tem mais impacto uma campanha que permita segmentar mensagens (neste caso, apontando ao target feminino), veiculada em mass media e que recorra ao storytelling para criar empatia (a campanha assenta numa “história de vida” de uma mulher com cancro). Esta informação combinada, resulta num briefing bastante desafiante, que imagino teria apelado a muitas equipas de criativos. Até aqui, tudo certo. Mas achar que a única forma de apresentar uma solução para a equação com os dados expostos atrás tem de passar por perpetuar um estereótipo que insulta tanta gente, revela uma falta de criatividade preocupante por parte dos ditos criativos, e de bom senso por parte de quem aprovou a campanha.

Se vamos olhar para estatísticas, vejamos também os estudos que mostram que as crianças começam a absorver noções sobre o que é esperado do seu género a partir dos 30 meses e, que entre os 4 e os 7 anos consolidam muitos dos preconceitos sobre aquilo em que é suposto tornarem-se boas e más. Isso tem uma correlação direta com o esforço que colocam nessas áreas, seja a matemática ou a dança, e no desenvolvimento de competências sociais e emocionais associadas. O problema com o culto da princesa é que arruma as raparigas no papel da donzela em perigo que só tem de se preocupar em estar bonita para atrair um prince charming que a salve de apuros. Mas a maioria das mulheres não pertence à realeza nem passará a vida a ser tratada como tal. Na verdade, existem mais probabilidades estatística de uma mulher vir a ser astronauta do que, de facto, se tornar princesa. Nove em dez vezes, irá pagar pela casa onde vive e pela roupa que veste. E não beneficia absolutamente em nada ser reduzida ao estereótipo da menina bonita e bem comportada. Do que beneficia é de ter escolhas. De viver numa sociedade que celebra a coragem, a criatividade, a diversidade, a igualdade de género no acesso às profissões e, já agora, à correspondente remuneração.

No mesmo dia em que o filme das princesas me chegou ao feed, foi apresentado em Lisboa o conceito da Super Bock para o Hub Criativo do Beato. Chama-se The Browers Company, vai produzir cervejas em pequena escala a partir de 2019, e tem como assinatura de marca “one bro, one brew”. O que me espanta é que, uma vez mais, não tenha havido uma alminha em todo o processo criativo e de aprovação da campanha que questionasse se será, de facto, apropriado em 2018, em plena época do #metoo, no ano em que o Harvey Weinstein é preso, num tempo em que livros como o “Brotopia - Breaking Up the Boy’s Club of Silicon Valley”, de Emily Chang, ou o “Bienvenue Dans Le Nouveau Monde - Comme J’ai Survecu à la Coolitude des Startups”, de Mathilde Ramadier, nos confrontam com a face visível da cultura machista dominante em vários ecossistemas de startups do mundo e com o feio que isso consegue ser, numa época em que devíamos estar todos a lutar por mais integração, mais diversidade e, consequentemente, mais mulheres no mundo da tecnologia - o que me espanta é que se escolha para um local que já é símbolo e irá ser cada vez mais a casa do ecossistema empreendedor de Lisboa, um conceito que tem subjacente a celebração da cultura dos bros. Cultura essa que o Oxford Dictionary associa ao personagem Barney Stinson e ao seu mítico “The Bro Code” - cuja regra número um é, claro, bros before hoes - e que bíblias menos eruditas mas bem fáceis de consultar, como a Wikipedia e o Urban Dictionary, associam a grupos de rapazes, brancos, privilegiados, nas suas frat houses universitárias, a inventar maneiras de diminuir e humilhar as raparigas. Perante isto, quando leio “one bro, one brew”, não percebo se a Super Bock não quer mulheres na sua “microcervejeira” ou se quer apenas aquelas que não se importam de ser coniventes com uma marca que celebra uma cultura profundamente insultuosa para as mulheres.

Num dos epitáfios mais bonitos que li nos últimos dias sobre o Anthony Bourdain, uma jornalista da New Yorker conta que lhe perguntou há algum tempo, em entrevista, se ele se considerava um feminista. Ao responder, no seu estilo de contador de histórias, ele andou em círculos, manifestou solidariedade com as lutas das mulheres, falou do ressentimento que sentia pelo momento “bro food” e acabou questionando se isso faria dele um feminista, ou simplesmente um nova-iorquino. A mesma colunista encontrou-o há meses numa festa, já depois de ele se ter enamorado pela Asia Argento, uma das atrizes que acusou Weinstein de violação e se tornou numa das mais vocais activistas do movimento #metoo. Segundo a jornalista, o Bourdain foi direito a ela no bar e disse: “lembras-te daquela vez que me perguntaste se eu me considerava um feminista e eu não te dei uma resposta clara? Escreve isto: “I’m a fucking feminist”. Me too, Anthony. Me too.

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