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A opinião de Uriel Oliveira
Opinião sincera sobre notícias falsas
4 de julho de 2018
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Opinião sincera sobre notícias falsas
Uriel Oliveira
Diretor Operações e Negócio Cision

Por muito que nos custe a aceitar, as notícias falsas fazem parte da atualidade. É impossível estar imune à praga mentirosa, que se alimenta, da avidez de cliques, da pressa de lançar o melhor furo jornalístico ou da intenção de influenciar, votos, decisões ou comportamentos.

Em Portugal, as notícias falsas resultam, sobretudo, da febre pelas audiências e cliques, no desespero dos órgãos de comunicação social para se autossustentarem, e aparecem um pouco por todo o lado:

Na política: título do Correio da Manhã - “Alemanha quer cortar relações com Portugal”, foto de Costa e Merkel de costas viradas. A verdade sobre a notícia: Intenção do parlamento alemão, por uma questão de contenção de custos, de extinguir os grupos de contacto com Portugal e Espanha, agrupando-os num só grupo para a Península Ibérica.

Na saúde: no Notícias ao Minuto, lê-se “Dar um smartphone ao seu filho, equivale a dar-lhe uma grama de cocaína”, afirmação de uma terapeuta especializada em comportamentos aditivos. Como é óbvio, não é verdade, a expressão foi descontextualizada para fazer este título.

No desporto
: Em plena crise no Sporting, o Público noticia “Jesus convicto de que Bruno deu carta-branca à Juve Leo” e garante que Jorge Jesus teria na sua posse provas que incriminariam o presidente do Sporting. Apesar de o ex-treinador do Sporting ter desmentido categoricamente esta notícia, negando ter qualquer prova que incriminasse o ex-presidente do Sporting, a notícia do Público continua online, agora com uma nota final da redação que esclarece “O Público registou o desmentido de Jorge Jesus à notícia... O Público quer sublinhar que sabe de que fonte recolheu essa informação — e que face às circunstâncias não tem razão para duvidar dela.” Ou seja, não entendo bem o que isto quer dizer, mas parece significar que, apesar de o próprio Jorge Jesus ser o protagonista principal e de ter desmentido categoricamente a notícia, a suposta fonte do Público continua inimputável.

Na música: foram vários os meios de comunicação social, Notícias ao Minuto, O Jogo, Nova Gente, entre outros, que noticiaram que Salvador Sobral terá dito sobre si próprio, numa entrevista a uma televisão espanhola, que era o Cristiano Ronaldo da música, só que pagava impostos. A notícia custou ao vencedor do festival Eurovisão, muitos milhares de insultos e inimigos nas redes sociais. Algumas personalidades fizeram duras críticas ao músico, como José Cid que se manifestou publicamente, e vários órgãos de comunicação social, como por exemplo o Jornal de Notícias, deram eco às suas palavras. Quintino Alves chamou-lhe “palhaço com cara de rato” o que fez as delícias da imprensa e que continua disponível, sem qualquer correção, na MSN Notícias, Sapo, IOL, entre outros.

A verdade é que Salvador Sobral não disse nada disto. As afirmações foram inventadas a partir das perguntas que o entrevistador espanhol fez ao músico, em tom provocatório, conforme pode ser constatado no vídeo da entrevista que está no Youtube, mas que conta apenas 24 000 visualizações, muito menos do que as pessoas que foram impactadas pela notícia falsa, seguramente mais de 1 milhão.

Nas empresas: “TAP. Acionistas chineses querem reduzir 100 mil empregos” destaca o jornal i na sua edição impressa. Como é óbvio, nem que seja pelo facto de a TAP não ter 100 mil trabalhadores, trata-se de uma jogada com as palavras. Na versão online, o título já foi “Acionistas chineses da TAP querem reduzir 100 mil empregos” com fotografia de um avião da TAP. A verdade por trás do título é logo esclarecida no texto da notícia - a sociedade HNA que detém a TAP, vai despedir os seus trabalhadores, não os trabalhadores da TAP.

Com press releases: o Observador garante que a “Skoda bateu a Tesla e chegou primeiro a Marte” – e tem provas disso em vídeo. No terceiro parágrafo esclarece, “Obviamente, a ‘viagem’ espacial da Skoda foi uma experiência diferente, que nunca descolou da Terra.”

Com conteúdos patrocinados: o Dinheiro Vivo aceitou publicar o texto “Há máquinas ATM onde se pagam taxas por levantar dinheiro”. Um artigo publicado por uma parte interessada, contra as máquinas da Euronet, que cita inclusivamente um testemunho, que passo a citar “Aconteceu-me nas férias no Algarve levantar 60€ euros numa ATM da Euronet. Tempos depois estava a analisar o meu extrato e reparei que me foi cobrada uma taxa de 5,75 euros por este levantamento, equivalente a mais de 9% do valor!” O que a notícia não diz é que este levantamento foi feito a crédito, situação em que todas as máquinas cobram taxas. A verdade é que em Portugal é proibido cobrar taxas por levantamentos a débito e por isso nenhuma ATM cobra taxas por levantamentos a débito.

Todas estas notícias, apesar de já terem sido denunciadas como falsas, continuam online, são artigos reais, que continuam a poder ser partilhados, continuam a fazer parte do espólio editorial dos órgãos de comunicação social que as publicaram, aparecem nos motores de pesquisa e nas redes sociais, como factos.

Influenciaram milhares de pessoas, sendo que muitas dessas pessoas não sabem ainda a verdade, uma vez que por norma os desmentidos, quando existem, não têm a mesma capacidade viral do que a notícia original falsa.

Um título altamente controverso sobre um assunto do momento é partilhado nas redes sociais e é remetido o desenvolvimento da história para o website: no desenvolvimento da história pode ser logo desvendado o trocadilho sendo, neste caso, uma mentira intencional tendo como único objetivo os cliques; ou pode tratar-se de uma notícia absolutamente falsa que resulta da pressa de dar uma informação (e para isso não houve tempo para validar); ou da intenção de influenciar um determinado comportamento.

Apesar de sempre terem existido notícias falsas, o conceito moderno de fake news, surge pela primeira vez na Macedónia em meados de 2016. Um grupo de adolescentes da cidade de Veles que queriam ficar ricos, criaram 140 sites de notícias que partilhavam nas redes sociais títulos altamente controversos sobre o assunto mundial do momento – as eleições americanas.

Notícias com títulos como “Papa Francisco apoia Donald Trump para presidente”, entre outros, chocaram o mundo e fizeram com que o número de cliques nessas notícias rapidamente atingissem milhões de page views. As ‘bombas’ largadas nas redes sociais, tinham um único propósito, encaminhar os visitantes para os websites onde estavam alojadas essas notícias e onde era mostrada publicidade contratada em sistema pay per view.

A combinação entre uma eleição altamente mediática, algoritmos de social media, sistemas de advertising online e pessoas sem escrúpulos capazes de inventar histórias para ganhar dinheiro, estão na base das fake news dos tempos modernos.

Na América as fake news serviram de arma de arremesso de Donald Trump contra os media tradicionais, que acusou de manipular informação e que ridicularizou criando os seus próprios prémios de notícias falsas.

Em Itália, o comediante Peppe Grillo levou o movimento 5 estrelas a alcançar um resultado histórico nas eleições para o parlamento, utilizando uma rede de sites afiliados que produziam fake news, como forma de canalizar audiências para o seu blogue, um dos blogues mais visitados em toda a Europa.

A fórmula é a mesma: uma mensagem forte contra o sistema instalado e a utilização das plataformas de social media para passar mensagens de mobilização contra os partidos políticos formais.

Grillo veio confirmar o que vários cientistas políticos já tinham antecipado: A internet vai levar ao declínio dos partidos políticos formais.

Quando acusado de produzir noticias falsas, Grillo volta-se contra a imprensa que acusa de fazer parte do sistema instalado que ele quer derrubar, afinal os media italianos sempre foram controlados pelos políticos formais, lembrando Berlusconi, dono do maior grupo italiano de media e ex-primeiro ministro.

No mercado saturado de informação - verdadeira, falsa, isenta ou manipulada - o que determinará a sobrevivência e longevidade dos jornais será a credibilidade e a confiança que os leitores depositam neles. O novo modelo de negócio dos media, tem que estar centrado no que verdadeiramente importa – o LEITOR. Só um modelo centrado no leitor, no seu direito a ter informação verdadeira e isenta, poderá vingar.

As democracias que conhecemos estão em risco e por isso é determinante reagir rapidamente na proteção dos seus valores. Se os políticos não parecem estar preparados para legislar nesta área, por falta de conhecimento e experiência nesta matéria, deverá existir uma aproximação construtiva aos gigantes da tecnologia, Google e Facebook, para que sejam desenvolvidos processos tecnológicos e humanos, que permitam filtrar informação verdadeira de informação falsa, que juntamente com uma legislação adaptada a esta realidade, poderão regular a situação.

Porém, os legisladores europeus parece que ainda não perceberam isto e preparam-se para traçar um caminho exatamente contrário: o Parlamento Europeu prepara-se para aprovar medidas de proteção dos direitos de autor, que preveem restrições para a partilha de links, dificultando desta forma o acesso à informação pelos motores de pesquisa e outros players que monitorizam e qualificam informação como a Cision, cuja contribuição poderá ser determinante para erradicar as notícias falsas – inteligência artificial e humana, são as chaves para este problema, e terá que ser dada responsabilidade e capacidade a quem poderá trazer essas competências para cima da mesa.

Agradecimento: Teria sido muito difícil, se não impossível, trazer alguns exemplos para ilustrar este texto, se não existisse uma página de Facebook chamada Os truques da imprensa portuguesa – Obrigado pelo excelente trabalho de investigação que nos vai mantendo alerta e não nos deixa amolecer.


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