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Confesso: hesitei em escrever este artigo. Nas últimas semanas sucedem-se reflexões, alertas e entusiasmo sobre Inteligência Artificial. Sobre o seu potencial, mas também sobre o uso excessivo, a má utilização, a resistência à sua adoção e, mais inquietante, o desconhecimento de muitos sobre aquilo que já está a mudar profundamente na forma como pensamos, decidimos, trabalhamos e vivemos. Há contributos muito relevantes. Mas talvez seja precisamente no meio deste turbilhão que importa registar aquilo que também me inquieta.
Sou adepta desde o início e reconheço que a Inteligência Artificial eleva tudo a níveis nunca verificados. Entre outros efeitos é importante que se saiba que é um mega acelerador: inteligência artificial com estupidez natural é mau resultado. Um colaborador que cometia erros estará hoje, com o recurso a IA, a errar ainda mais e mais rápido. A ferramenta intensifica fazer melhor ou pior, conforme a base.
Destaco, entre as muitas publicações e opiniões que se vão fazendo nos mais diversos fóruns, o seguinte texto (tradução livre):
“O perigo existencial para as pessoas pode não vir da inteligência artificial se tornar demasiado inteligente, mas sim dos humanos se tornarem perigosamente dependentes de sistemas que não compreendem: a condição da superstupidity. A questão não é quanto a IA irá potenciar a tomada de decisão, mas se os humanos irão continuar envolvidos.” Roger Spitz
A palavra, e sobretudo o conceito, ficou-me na cabeça: superstupidity.
Não fala de falta de inteligência, mas sim da elevada confiança nos novos sistemas. Refere-se a algo profundamente desconfortável: pessoas inteligentes, competentes e experientes… que começam lentamente, sem se darem conta, a deixar de pensar por si. Porque ao utilizarem ferramentas tão rápidas e fáceis acabam por confundir velocidade com pensamento e resposta com compreensão. Gente capaz que se julga mais esperta porque domina ferramentas IA, mas até que ponto? Sabem quando parar?
A inteligência artificial pode ser uma das maiores ferramentas de democratização do conhecimento da nossa geração. Mas também pode criar uma ilusão perigosa: a sensação de maior competência associada a menor compreensão. E o risco não é a IA ficar mais inteligente que nós, é nós ficarmos perigosamente super estúpidos.
A questão não é se a IA nos vai substituir, mas outra: quanto de nós estamos dispostos a abdicar para o evitar? O pensamento, o julgamento, as ações e a responsabilidade continuarão, e devem continuar, a ser profundamente humanos.
Vejo impactos em todas as frentes, e saliento alguns pontos:
Económicos e Empresariais
Positivo:
Potencia eficiência, rapidez, produtividade e capacidade de antecipar tendências. As pequenas empresas podem hoje competir de forma impensável há poucos anos.
Negativo:
O problema começa quando deixamos de delegar tarefas e começamos a delegar pensamento. Líderes que seguem dashboards sem ir ao terreno nem falar com as pessoas. Decisões tomadas exclusivamente por análise de dados, ignorando aquilo que não cabe num Excel: cultura, emoções, motivação, contexto e intuição humana.
Novidade: já não se fala apenas de EBITDA. Fala-se de EBITTDA: resultados antes de juros, impostos, amortizações… e tokens.
Sociais
Positivo:
Mais acesso ao conhecimento, novas formas de aprendizagem, inclusão digital e democratização de oportunidades antes impensáveis.
Negativo:
O perigo das pessoas deixarem de questionar. Se um sistema responde rapidamente, começamos a assumir que está certo. O pensamento crítico pode transformar-se numa espécie em vias de extinção.
Políticos
Positivo:
Maior acesso à informação, participação, cidadania e capacidade de análise de cenários complexos.
Negativo:
Desinformação em escala industrial e global. Narrativas manipuladas e opiniões moldadas por algoritmos, antes sequer de termos tempo para pensar nelas.
Tecnológicos
Positivo:
Ferramentas extraordinárias para resolver problemas de elevada complexidade, melhorar saúde, mobilidade, segurança e acesso ao conhecimento.
Negativo:
Respostas que já ninguém questiona. Se parece inteligente, assume-se correto. Eis um dos maiores paradoxos do nosso tempo: usar tecnologia avançada sem compreender verdadeiramente o que faz nem como o faz.
Legais e Éticos
Positivo:
A oportunidade de construir uma sociedade mais justa, transparente e com modelos auditáveis. Negativo:
Quem responde quando uma decisão automatizada falha? Quem assume responsabilidade quando ninguém percebe exatamente como a decisão foi tomada? Insistimos em tratar a IA como neutra, quando ela acarreta escolhas, prioridades e vieses humanos.
Ensino
Positivo:
Aprendizagem personalizada, acesso global e ferramentas extraordinárias para acelerar competências. Negativo:
O risco de formar pessoas que sabem perguntar à máquina, mas não sabem o que perguntar a si próprias.
Educar hoje também é evitar que as pessoas se sintam mais inteligentes só por usarem IA. E capacitá-las para que não utilizem os novos sistemas de forma profundamente estúpida.
A IA talvez seja hoje um carro supersónico que está ao alcance de todos. O problema não é a velocidade. É acreditar que sabemos conduzi-lo quando ainda mal percebemos como trava. Um perigo.
Há empresas a medir horas de utilização de IA. Já outras entraram na fase de medir outra coisa: a qualidade do pensamento e do output gerado a partir dela. Ficam as 3 métricas de maturidade de IA nas empresas:
1. Adesão: usam ou não usam?
2. Qualidade de utilização: sabem perguntar, validar, corrigir, iterar?
3. Impacto/output: melhor decisão? mais produtividade? menos erros? mais inovação? melhor serviço?
Porque podemos ter:
• muita utilização + maus resultados = superstupidity organizacional
• pouca utilização + alta qualidade = maturidade;
• alta utilização + alto critério = vantagem competitiva.
A resposta não é simplesmente usar mais ou menos IA, é usá-la bem. Questionar e confirmar mais, cruzar perspetivas. Continuar a aprender, sempre. E perceber que rapidez nunca foi sinónimo de discernimento, qualidade nem profundidade.
No fundo, a superstupidity não é sobre máquinas. É sobre humanos que vão, paulatinamente, deixando de pensar. Esta é uma era que exige mais humanização e pensamento crítico, os mais valiosos diferenciais dos nossos dias.
Como se faz? Talvez recorrer à IA seja uma boa ideia. Se fizermos boas perguntas é provável que se obtenham respostas interessantes, que podem ajudar, desafiar, corrigir, acelerar e até abrir caminhos. Pode ser um extraordinário assistente, um ajudante valioso, se soubermos tirar partido dessa colaboração. Mas pensar continuará a ser trabalho humano.
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