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A opinião de Eduardo Tavares
Nova Iorque – A Grande Catraca
11 de fevereiro de 2020
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Nova Iorque – A Grande Catraca
Eduardo Tavares
VP Creative Director for Craft & Design AREA 23

No início de fevereiro, completei 1 ano em Nova Iorque. Vindo de países latinos como Brasil e Portugal, deparei-me com muitas diferenças como os copos ridiculamente grandes de café aguado, as pessoas que preferem o “God Bless You” após um espirro ao “Good Morning” no primeiro encontro pela manhã e as enormes catracas (torniquetes) de metal do metro. Mas, sem dúvida, o famoso “ritmo de Nova Iorque” foi o que mais chamou minha atenção.

Esse compasso diferenciado está presente em todos os diversos aspetos da cidade. No transporte público (ouse andar devagar na escadaria de um metro e seja atropelado sem piedade), no comércio, (basicamente vive-se o vídeo do Spolleto, dos brasileiros do Porta dos Fundos, repetido em loop infinito em qualquer estabelecimento que você vá), e, sem dúvida, no dia a dia das agências de publicidade.

Nas minhas primeiras semanas, ao final do expediente, eu voltava para casa com uma persistente dor de cabeça. Achei, de início, que fosse por conta do frio, que nada tem daquele delicioso friozinho de 10 graus de Lisboa. Cheguei a pensar que fosse culpa da culinária balanceada por milkshakes e hambúrgueres tão famosos da região. Quanta ingenuidade. Afinal, nada mais era do que o meu cérebro a adaptar-se ao “Keep Pushing” (explico mais à frente) do novo ritmo de trabalho.

Os dias cá rendem como nunca. Todos os minutos são aproveitados, em diversas mini-tarefas e “checkpoints” que transformam a agenda do Outlook numa verdadeira Batalha Naval (“Reunião no A5!”, “Fogo! Acertaste em cheio no meu ‘Call’ das 13:30.”). Ao contrário da cultura latina do “trabalha muito por 2 horas, procrastina por 15 minutos, trabalha de novo por duas horas, almoça em uma hora e meia, trabalha, procrastina...”, aqui trabalha-se intensamente em vários pequenos bocados do dia. 15 minutos para um cafezinho? Nem pensar. Almoço em uma mesa de verdade - ao contrário de em uma secretária com seu teclado como companhia - é um luxo (que admito, sigo aproveitando com a pompa e ostentação que no máximo 15 minutos podem proporcionar). Longos períodos em um único projeto também são raros. Na maioria das vezes, inúmeros briefings, com prazos razoáveis, acumulam-se durante o mesmo dia. E aí, haja organização para não deixar a bola cair.

Nesse frenesim inicial e correria de reuniões e briefings, o meu cérebro sofria com a intensidade e, principalmente, com as maiores dúvidas que o rondavam: “Afinal, que hora eu crio?” “Quando consigo fazer um layout?” E esta foi a minha maior dificuldade nesse começo. Aos poucos, o processo criativo adapta-se ao novo ritmo e, especialmente, torna-se em algo mais constante, prático e ágil – o oposto daquele místico momento de criação divina e separada da realidade, muito comum nos brainstorms latinos. E aqui fica o meu agradecimento ao Edson Athayde, que sempre buscou, e busca, esse estilo de praticidade no dia a dia de suas agências, o que sem dúvida foi muito benéfico para mim. Obrigado, Edson.

Uma expressão que me chamou a atenção e parece encaixar-se perfeitamente nesta intensidade nova iorquina foi “keep pushing” (o popular “faz mais”), muito utilizado por estas bandas. Seja em busca de novas ideias, de novos conceitos, de novas execuções ou oportunidades de craft. Seja em busca de “keep pushing” tarefas nos milimétricos momentos da sua agenda. Seja para “keep pushing” por maneiras diferentes de passar a mesma mensagem. Ou simplesmente um “keep pushing” para caber mais gente dentro do vagão do metro. Esta cultura impera em todos os setores e, na minha opinião, funciona graças ao trabalho em equipe, porque a cadência eficiente só existe quando todos os indivíduos atuam no mesmo ritmo.

Isto leva-me à analogia da ilustração desta coluna. Àquele que deveria tornar-se figura central no brasão e símbolo de Nova Iorque: o torniquete do metro (em bom português do Brasil: a catraca). E quando digo torniquete, não me refiro àquela trava de metal que vai até a sua cintura e desliza suavemente durante sua passagem. Falo de uma estrutura muito característica das estações de cá, um modelo gigante, do tamanho de uma porta giratória, composta de diversos braços do mais pesado metal que deslizam com a suavidade de uma engrenagem que acaba de ser oleada com um punhado de areia da Praia da Falésia. Esse torniquete, para mim, representa perfeitamente a cidade de Nova Iorque e essa sua intensidade característica. É muito difícil fazê-lo girar sozinho. Demanda mais tempo e requer algumas boas gotas de suor do utilizador. Entretanto, ele roda na perfeição quando 2 ou 3 pessoas estão a utilizá-lo em conjunto. Aí sim, gira que é uma beleza. Mas atenção ao ritmo! Tem de saber o momento certo de entrar. Se for muito rápido, pode arrastar alguém desavisado consigo. Ou ainda pior, se for demasiado lento, pode perder um braço pelo caminho.

Então, não perca o ritmo e “keep pushing”.



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