LiveModeTV chega a Portugal com Cristiano Ronaldo como acionista. O que muda para o desporto, os media e as marcas?

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LiveModeTV chega a Portugal com Cristiano Ronaldo como acionista. O que muda para o desporto, os media e as marcas?
2 de Junho de 2026
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A plataforma apresenta-se como um novo modelo de distribuição desportiva desenhado para uma geração que já não distingue televisão, redes sociais e plataformas digitais, consumindo conteúdos de forma contínua, em múltiplos ecrãs e num ecossistema onde o desporto é vivido em tempo real, comentado em comunidade e prolongado muito para lá do apito final.


A LiveModeTV chega ao mercado português com uma proposta que desafia as fronteiras tradicionais da transmissão desportiva, assumindo-se como uma plataforma de streaming gratuito em direto no YouTube que prepara a emissão de 34 jogos do Mundial 2026, incluindo todos os encontros da Seleção Nacional, num modelo que combina desporto ao vivo, creators e distribuição digital orientada para comunidades.


A entrada de Cristiano Ronaldo como sócio estratégico e acionista reforça de forma significativa a escala e a ambição do projeto, que procura replicar em Portugal o modelo da CazéTV no Brasil, hoje uma das maiores referências globais na transmissão digital de desporto ao vivo, combinando streaming gratuito no YouTube, linguagem nativa das redes sociais e uma forte presença de creators como parte ativa da narrativa editorial.


Mais do que uma nova plataforma, a LiveModeTV levanta uma questão estrutural sobre o ecossistema mediático contemporâneo: estaremos perante uma evolução natural dos modelos de distribuição ou perante uma reconfiguração profunda da forma como o desporto, a atenção e o investimento publicitário são organizados num ambiente dominado pela fragmentação digital?


Para responder a esta questão, o Imagens de Marca cruzou três níveis de leitura distintos: o nível do produto e da operação, através de João Mesquita, General Manager da LiveModeTV em Portugal; o nível do consumo e da transformação cultural do desporto, através de Daniel Sá, diretor executivo do IPAM e especialista em marketing desportivo; e o nível do ecossistema de media e investimento publicitário, com a análise da dentsu Portugal, representada por David Reis (Chief Innovation Officer), Jorge Francisco (Head de Strategy & Content Marketing), Nuno Fernandes (Service Delivery Lead) e Carla Bota (Trading Director), num momento em que a agência lidera o mercado nacional de meios em volume de investimento publicitário, segundo o ranking MediaMonitor/Marktest de investimento publicitário (jan–mar 2026).


O resultado é uma leitura em três níveis — produto, consumo e mercado — sobre aquilo que pode vir a ser uma nova camada no sistema mediático desportivo.


Um broadcaster digital pensado para um consumo em fluxo


Em declarações ao Imagens de Marca, João Mesquita, General Manager da LiveModeTV em Portugal, explica que a plataforma “posiciona-se como um novo tipo de broadcaster digital”, acrescentando que o objetivo passa por “tornar o desporto mais próximo, interativo e alinhado com os hábitos atuais de consumo”.

O responsável sublinha que a lógica do projeto não replica a televisão tradicional, defendendo que “o desporto já não é consumido em horários fixos, é consumido em fluxos contínuos, muitas vezes em simultâneo com outras plataformas e com participação ativa do público”.


João Mesquita reforça ainda que a LiveModeTV foi desenhada especificamente para o mercado português, explicando que “foi pensada de raiz para o mercado português, garantindo uma ligação autêntica com o público”, o que implica estudar “o comportamento das audiências, os seus hábitos de consumo e a forma como se relacionam com o desporto no ambiente digital”.


Para o responsável, Portugal apresenta condições particularmente favoráveis a este modelo, sublinhando que “tem uma maturidade digital elevada e uma relação muito ativa com creators e redes sociais”.


Na leitura de Daniel Sá, este modelo representa também uma mudança na lógica económica do consumo, passando de uma abordagem centrada na subscrição para uma estratégia baseada em escala e inventário publicitário, defendendo que o sistema passa a maximizar “relevância cultural e atenção” em vez de apenas acesso pago.


Creators como nova camada editorial do desporto ao vivo


Um dos elementos mais distintivos do modelo da LiveModeTV é a centralidade dos creators, que deixam de ocupar um papel periférico e passam a integrar a própria estrutura editorial da transmissão.


João Mesquita explica que “os creators têm um papel central na construção da experiência LiveModeTV”, funcionando como “pontos de ligação entre o conteúdo e as comunidades que já acompanham”.


Segundo o responsável, esta integração transforma a transmissão num ambiente mais aberto e reativo, onde o público não é apenas espetador, mas participante ativo. “A forma como os creators comunicam aproxima o conteúdo das dinâmicas naturais das redes sociais, criando uma experiência mais espontânea e participativa”, acrescenta.


Na leitura de Daniel Sá, esta centralidade dos creators reflete uma transformação mais profunda no consumo de desporto, defendendo que “os creators são hoje o principal mecanismo de tradução do desporto para linguagem digital”, ao transformarem “o jogo em narrativa, em humor e em comunidade”.


O especialista acrescenta ainda que estes criadores assumem hoje uma função de “curadoria de atenção”, organizando o consumo em tempo real e influenciando não apenas o que é visto, mas a forma como os momentos do jogo são interpretados e partilhados.


Cristiano Ronaldo como validação e aceleração de escala


A entrada de Cristiano Ronaldo como acionista da LiveModeTV surge como um dos elementos mais simbólicos desta nova operação em Portugal, não apenas pela dimensão mediática do jogador, mas sobretudo pelo impacto estratégico da sua participação na estrutura da empresa.


João Mesquita considera que a entrada do capitão da Seleção Nacional “é uma forte validação do que construímos e dos nossos planos para o futuro”, acrescentando que “poucas pessoas incorporam a paixão, a ambição e o alcance global do desporto como ele”, sublinhando ainda que a ligação do jogador às gerações mais jovens torna esta parceria particularmente relevante para o posicionamento da plataforma.


Na leitura de Daniel Sá, esta participação representa uma transformação mais profunda no modelo de media desportivo, explicando que a entrada de Cristiano Ronaldo significa “a associação de uma das marcas pessoais mais valiosas e globais do desporto a um modelo de distribuição que está a reconfigurar a cadeia de valor dos direitos”, passando de uma lógica centrada em canais para uma lógica centrada em ecossistemas digitais que integram conteúdo ao vivo, comunidades e creators, sendo que, quando um atleta desta dimensão entra no capital de uma empresa, “deixa de ser apenas embaixador e passa a ser parte do motor do negócio”, o que altera o posicionamento da plataforma junto de anunciantes, parceiros e detentores de direitos.


O Mundial 2026 como teste de escala global


A transmissão de 34 jogos do Mundial 2026 em sinal aberto no YouTube, incluindo todos os encontros da Seleção Nacional, representa o primeiro grande teste em escala para o modelo da LiveModeTV, num contexto em que o torneio funciona como um dos maiores momentos de atenção global no desporto.


João Mesquita afirma que o Mundial de 2026 “é o maior evento desportivo do mundo e representa uma oportunidade única para demonstrar o potencial deste modelo à escala global”, explicando que o contexto da competição cria condições ideais para novas formas de consumo, uma vez que “a atenção da audiência jovem, normalmente fragmentada, se concentra de forma muito mais envolvida”, permitindo experiências mais imersivas e interativas.


O responsável acrescenta ainda que este modelo cria novas oportunidades para marcas, ao permitir “integrar as suas mensagens no próprio conteúdo com criatividade, relevância contextual e proximidade aos creators”, defendendo que o Mundial será “um espaço privilegiado para experimentar novas formas de ligação entre conteúdo e audiência”, num ambiente onde publicidade e conteúdo tendem a tornar-se mais integrados.


Também Daniel Sá sublinha o potencial transformador do torneio, descrevendo a combinação entre gratuito, YouTube e creators como “praticamente perfeita para reduzir a distância entre um grande evento e os hábitos de consumo das gerações mais novas”, acrescentando que o verdadeiro ponto de viragem não está apenas no acesso, mas na transformação do Mundial num “evento social diário, com jogo do dia, conversa e reação”, aproximando-o de uma lógica de programação contínua típica das plataformas digitais.


Desporto, entretenimento e cultura digital em convergência


A LiveModeTV assume explicitamente a fusão entre desporto e entretenimento, criando uma experiência contínua onde análise, humor e reação coexistem em tempo real.


João Mesquita explica que existe uma lógica editorial híbrida, defendendo que “existe uma equipa central que define os momentos principais, deixando espaço para que cada creator atue de forma livre e espontânea”.

O responsável acrescenta ainda o equilíbrio editorial do modelo, sublinhando que “os creators têm liberdade para reagir e criar conteúdos à sua maneira, de forma natural, desde que alinhados com os valores da plataforma”.


Na visão de Daniel Sá, esta convergência é irreversível, defendendo que “os creators são hoje o principal mecanismo de tradução do desporto para linguagem digital”, transformando o jogo em experiência cultural partilhada.


Media tradicionais: complementaridade e disputa pela atenção


A chegada da LiveModeTV ao mercado português levanta inevitavelmente questões sobre o impacto deste tipo de plataformas no ecossistema dos media tradicionais e no investimento publicitário. João Mesquita rejeita uma lógica de substituição, explicando que o projeto “não é uma substituição da televisão tradicional, mas uma resposta complementar a novos hábitos de consumo e a novos perfis de audiência”, acrescentando que o objetivo passa por fazer crescer o ecossistema como um todo, defendendo que “quanto mais gente nova trouxermos para o nosso modelo, maior será o público que vai consumir conteúdo desportivo em todos os ambientes”.


Na leitura de Daniel Sá, a relação entre modelos não é exclusivamente complementar, mas estruturalmente competitiva na dimensão mais crítica do ecossistema atual. O especialista sublinha que, embora no curto prazo se trate de uma dinâmica de complementaridade, existe já uma “concorrência direta pela atenção”, reforçando que “a atenção é a nova moeda dos media”. Nesse contexto, acrescenta que mesmo sem deter a totalidade dos direitos desportivos, plataformas digitais podem ganhar centralidade ao “criar conversa, momentos e capturar inventário publicitário e dados comportamentais”, deslocando o valor do simples acesso ao conteúdo para a capacidade de gerar engagement contínuo.


Do ponto de vista do mercado publicitário, a dentsu Portugal enquadra a entrada da LiveModeTV como parte de uma transformação estrutural do ecossistema mediático. Em declarações ao Imagens de Marca, a equipa explica que olha “com muito interesse e agrado” para a entrada de novos players no mercado, defendendo que “é fundamental para uma evolução sustentável do ecossistema com introdução de perspetivas e tecnologias inovadoras que causem disrupção e obriguem todos os publishers a reinventar-se de acordo com os novos hábitos de consumo dos Portugueses”.


A agência acrescenta que este tipo de plataformas procura ocupar um espaço “full digital e adaptado à forma como as audiências consomem conteúdos em redes sociais”, combinando elementos tradicionalmente associados a diferentes meios. Segundo a dentsu, o modelo combina “escala — tradicionalmente associada à televisão — com capacidade de segmentação, interatividade e data, típica do digital”, criando um território híbrido onde o valor já não depende apenas do alcance, mas também da qualidade da interação e da capacidade de leitura de dados comportamentais.


Nesse contexto, a medição de eficácia assume um papel central. A agência sublinha que já recorre a soluções avançadas que permitem “quantificar com elevado grau de acerto a eficácia de determinado canal ou approach de comunicação”, identificando “relação de causa/efeito tanto em flutuações de percepção de marca, como na influência da consideração ou mesmo na geração de vendas”, o que reforça a transição de métricas de exposição para métricas de impacto real.


Do ponto de vista criativo e estratégico, a dentsu defende que este novo ecossistema exige uma rutura clara com formatos tradicionais. A agência sublinha que “não podemos simplesmente replicar formas de advertisement já existentes noutros meios digitais”, defendendo uma evolução para modelos onde o conteúdo e a marca deixam de operar em paralelo e passam a ser concebidos de forma integrada. Nesse sentido, o branded content é descrito como elemento central, “mandatório”, e dependente de um alinhamento entre marca, tom e posicionamento da plataforma.


É neste enquadramento que surge uma das ideias mais estruturantes da entrevista: o papel dos creators enquanto elemento de ligação do sistema. A dentsu define-os como “a cola que permite por default a simbiose entre a estratégia de meios e a estratégia criativa”, reforçando a ideia de que a influência deixou de ser apenas um ativo de comunicação para se tornar um elemento estrutural da cadeia de valor mediática.


Um ecossistema em transformação


Apesar das diferentes leituras, existe um ponto de convergência claro entre todos os intervenientes: o ecossistema de media desportivo está a atravessar uma transformação estrutural.


Para a dentsu, esta fragmentação representa uma oportunidade de expansão do mercado e de aumento da audiência efetiva, com maior potencial de consumo e mais horas de contacto. Para Daniel Sá, trata-se de uma reorganização profunda da cadeia de valor dos direitos e da atenção, onde o centro deixa de estar no canal e passa a estar no ecossistema e na capacidade de gerar relevância contínua. Para a LiveModeTV, essa evolução traduz-se numa adaptação natural aos novos hábitos de consumo, assente em formatos digitais, sociais e altamente interativos.´


No centro desta transformação permanece uma variável dominante: a atenção.


Uma variável que, como sintetiza Daniel Sá, se tornou o principal ativo do ecossistema mediático contemporâneo, influenciando não apenas o que é visto, mas sobretudo a forma como o desporto, os media e as marcas se organizam num ambiente marcado pela fragmentação, pela multiplicidade de plataformas e pela disputa permanente por momentos de relevância.

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