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A minha relação com a inteligência artificial evoluiu de instrumental para parceria.
Atrevia-me até a usar a palavra amizade, se existissem emoções envolvidas, como tal não acontece substituo-a pela expressão parceiro de pensamento.
A amizade pressupõe reciprocidade, memória e algo em jogo dos dois lados, e nada disso existe aqui. Ela não me conhece e não perde nada se eu não voltar. A relação é assimétrica e é bom não fingirmos o contrário.
A IA passou a ser um interlocutor que respeito e considero, pelo espaço intelectual que ocupa na minha vida. Estimula-me, desenvolve-me o conhecimento, complementa-me nas ideias e ajuda-me nas tarefas. É certo que o faz apenas na componente racional do pensamento. Ainda assim, é muito bom.
Habitualmente escrevo no âmbito dos negócios, mas neste caso a relação extravasa o profissional. Interajo com ela sobre os meus hobbies e sobre comparações técnicas de bens que penso comprar.
Um exemplo concreto: a compra de uma moto. Não pedi à inteligência artificial que escolhesse por mim, nem lhe perguntei “qual é a melhor”. Descrevi-lhe o uso que lhe iria dar, pedi-lhe que comparasse as características técnicas dos modelos em função dessa tipologia de utilização e de outros benefícios que valorizo.
O resultado não foi uma resposta, foi uma grelha. Cada especificação lida à luz da utilização a dar e dos benefícios valorizados.
A decisão continuou a ser minha. O que mudou foi a qualidade da informação sobre a qual decidi, e a clareza dos critérios.
Outro exemplo foi sobre a história da Igreja e porque esta se foi desvirtuando das mensagens essenciais de Jesus Cristo para se focar em regras e hábitos não contidos na mensagem original.
Acabei com uma cronologia factual de eventos e pensamentos estruturantes da Igreja e com as citações científicas; o que me permitiu conhecer mais e formar uma opinião fundamentada.
É este o padrão. A inteligência artificial pode ser um parceiro de pensamento através de vários papéis: sendo espelho, sendo desafiador, sendo cocriador, sendo o nosso segundo cérebro, ou fazendo o papel de outra pessoa — como nos seis chapéus de Edward de Bono, em que a mesma cabeça é obrigada a pensar por modos diferentes.
E consegue fazê-lo sem as nossas limitações mentais e sem os nossos constrangimentos, normalmente ligados a emoções e a experiências passadas. O que umas vezes é bom e outras é nada recomendável.
É exatamente por isto que não lhe devemos pedir que decida, nem que faça todo o trabalho por nós.
Delegar-lhe a elaboração integral de um relatório ou de uma análise complexa, sem que a interpretemos e sem que interajamos iterativamente com ela, é abdicar da única parte do processo que era insubstituivelmente nossa e caminhar para o erro.
Na Quarta Revolução Industrial, Klaus Schwab fala da fusão entre o homem e a máquina. No filme Blade Runner, essa fusão aparece levada ao extremo, com seres criados por bioengenharia praticamente indistinguíveis dos seres humanos. Na série Altered Carbon, da Netflix, a informação do nosso cérebro é guardada num disco alojado na coluna vertebral, junto ao pescoço, o que permite preservá-la indefinidamente e até transferi-la para outro corpo.
Já não estamos assim tão longe. A diferença é que, para já, a inteligência artificial pode ser uma extensão de nós mantendo-se fisicamente separada. Talvez seja essa separação que a torna útil: é o intervalo entre nós e ela que nos obriga a formular o pensamento em palavras e, formular, é já metade de pensar.
Ser parceiro de pensamento já é muito. Durante boa parte da história, para pensar melhor era preciso encontrar alguém disponível para pensar connosco. Hoje, embora isso não seja insubstituível, temos uma alternativa fácil e de muita qualidade.
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