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A opinião de Susana Albuquerque
Confissões de alguém com medos
21 de março de 2019
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Confissões de alguém com medos
Susana Albuquerque
Diretora Criativa Uzina Lisboa

Escrevo estas linhas no assento 25D de um 737 da United Airlines e se o leitor está a lê-las, é bom sinal. Significa que aterrei sã e salva. Confesso que tenho medo de voar. Tenho tanto medo de voar quanto adoro viajar. Sou filha de piloto, mas o meu corpo diz-me que voar é a invenção mais contra-natura de todos os tempos, e tenho provas sempre que entro num avião, quando vejo o esforço que os motores fazem para descolar do chão aquelas toneladas. Mas tal como o progresso foi fazendo da insanidade uma rotina, também eu fui arranjando estratégias para conviver com o pânico: aspiro um pacote de pastilhas por descolagem, fixo-me na descontração do pessoal de bordo, peço um copo de vinho, vejo comédias, penso nos milhares de voos a acontecer ao mesmo em todo o mundo, faço respirações profundas enquanto o avião sobe e tento rir-me da morte. Porque para mim só há duas hipóteses: ou venço o medo de voar, ou desisto de viajar. E a primeira opção tem-me parecido a mais razoável.

Assim tem sido com a maioria dos meus objectivos. Como gosto de viajar, luto contra o medo de voar. Como queria evoluir na pratica do yoga, ultrapassei o medo de fazer o pino. Como escolhi ser publicitária, ultrapassei o medo de contar ideias em público. Como queria experimentar trabalhar noutro mercado, venci o medo de trabalhar noutro mercado. E assim sucessivamente.

Eu acho natural ter medo. Acontece à maioria dos humanos, mesmo que alguns nasçam destemidos ou sejam educados desde cedo para ser corajosos. No meu caso, a coragem nunca é um fim só por si. Não consigo tirar prazer do perigo e da adrenalina. Para mim, a coragem é um autocarro que apanho para chegar a algo maior. Pelo caminho, tento que o medo atrapalhe o menos possível.

Tanta confissão pessoal vem a propósito do tema deste ano do Festival do CCP: “Sem medos”. É um sinónimo de coragem, óbvio, mas para mim também significa querer mais e melhor, e fazer por isso.

Se queremos ter melhores ideias, se queremos o respeito do director criativo, se queremos a confiança dos clientes, se queremos ter impacto nas pessoas com quem falamos, se queremos ser generosos com elas e dar-lhes algo bom de volta, se queremos trazer negócio para os clientes, se queremos ser líderes, se queremos ganhar prémios, dentro e fora de Portugal, se queremos ter orgulho no que fazemos, ou mesmo que só queiramos fazer um pouco melhor do que fizemos ontem, talvez valha a pena parar para observar o que de verdade nos impede de o fazer. Será que é o medo que nos encolhe? Porque não arriscamos mais, até no momento de definir a nossa ambição? E se não é o medo que nos atrapalha, como chamar a essa parte de nós que tantas vezes nos empurra para trás e nos impede de avançar?

De 15 a 19 de Maio será assim: o CCP convida-nos a pensar sobre o medo e a coragem. Desde o medo do cliente que não vai gostar ao medo de ser ridículo, do medo de não ter ideias ao medo das ideias impossíveis de produzir, do medo de ser parvo ou complicado até ao medo do que vão dizer as caixas de comentários. Para isso, juntaremos gente que não tem medo, e vamos querer saber porquê.

Serão 5 dias de exposições, workshops, conferências, revisão de portfolios, mercado criativo e prémios. Sem medos. Porque, pelo menos para mim, as hipóteses são essas: ou vencemos o medo de voar, ou abdicamos de viajar até lugares novos e extraordinários.


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