A sociedade das facas de peixe

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A opinião de José Borralho
A sociedade das facas de peixe
30 de Junho de 2026
A sociedade das facas de peixe
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A sociedade das facas de peixe
José Borralho
Presidente da JB TOMORROW GROUP SGPS
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Há qualquer coisa de profundamente absurda e incrivelmente reveladora no facto de continuarmos a usar facas de peixe em pleno século XXI.

 

Este fim de semana, enquanto almoçava num restaurante à beira-mar, perante uma excelente posta de corvina acompanhada de legumes salteados “al dente”, dei por mim novamente naquela luta silenciosa e ridícula entre um homem adulto… e uma faca completamente inútil para cortar seja o que for além de peixe delicadamente laminado.

 

A faca de peixe é um objeto extraordinário. Não porque funcione bem. Mas precisamente porque quase não serve para nada.

 

Foi criada numa época aristocrática em que a etiqueta era mais importante do que a funcionalidade. No século XVIII e XIX, o peixe era visto como um alimento delicado, refinado, quase cerimonial. As facas normais oxidavam em contacto com o sal e o limão, alteravam o sabor e rasgavam a textura do peixe. Resultado? Inventou-se uma faca específica, larga, elegante, sem ponta agressiva, desenhada não para cortar… mas para “acompanhar” o peixe.

 

Repare-se na ironia: a faca nunca nasceu para ser eficiente. Nasceu para parecer civilizada.

 

E talvez esteja aqui um dos maiores problemas do mundo moderno. Vivemos rodeados de facas de peixe. Empresas inteiras construídas em torno de processos que já ninguém questiona. Reuniões onde ninguém decide nada, relatórios que ninguém lê. Apresentações com cinquenta slides para justificar decisões que já estavam tomadas antes da reunião começar. KPIs criados para medir produtividade industrial em equipas criativas. Departamentos inteiros especializados em manter vivo aquilo que já morreu. Tudo muito elegante. Tudo muito profissional. Tudo incrivelmente inútil.

 

Mas o mais fascinante é perceber como chegamos aqui: institucionalizando hábitos até eles deixarem de ser questionáveis.

 

É exatamente isso que fazemos enquanto sociedade. Transformamos soluções temporárias em dogmas permanentes. Criamos regras para resolver problemas específicos de uma determinada época… e depois carregamo-las durante décadas como se fossem verdades universais.

 

A faca de peixe é apenas um símbolo pequeno e quase cómico dessa tendência gigantesca.

 

Em algum momento da história, ela fazia sentido. Hoje, na esmagadora maioria das vezes, já não faz. Mas continua ali. Intocável. Sagrada. Porque, entretanto, deixou de ser um utensílio. Passou a ser um ritual. E é aqui que muitas empresas começam a morrer sem perceber.

 

Porque há organizações inteiras construídas sobre rituais antigos. Modelos de liderança criados para fábricas do século passado. Sistemas de aprovação desenhados para um mundo lento.


Hierarquias montadas para controlar pessoas e não para potenciar talento. Estruturas tão obcecadas com procedimentos… que perderam a capacidade de pensar.

 

O problema nunca é a origem da regra. O problema é a incapacidade de a abandonar quando deixa de servir. Mas abandonar o passado exige coragem. Porque durante anos ensinaram-nos que estabilidade era inteligência. Que repetir era segurança. Que respeitar a tradição era sinal de maturidade. E assim institucionalizámos a resistência à mudança.

 

Hoje há empresas que parecem museus organizacionais: tudo impecavelmente arrumado… e completamente desligado da realidade. Chamamos-lhe “processo”. Chamamos-lhe “governance”. Chamamos-lhe “best practices”. Mas muitas vezes é apenas medo mascarado de profissionalismo.

Medo de simplificar, de cortar etapas, de parecer demasiado direto, de admitir que aquilo que funcionou durante vinte anos já não funciona hoje. Porque reconhecer isso obriga-nos a confrontar uma verdade desconfortável: muitas vezes não estamos a defender qualidade. Estamos apenas a defender hábitos.

E o mundo está cheio de pessoas brilhantes presas em sistemas medíocres precisamente porque ninguém teve coragem de perguntar: “Mas isto ainda faz sentido?”

 

A pergunta mais perigosa dentro de uma organização raramente é “quanto vamos crescer?”.
É: “porque é que fazemos isto desta maneira?”

 

Porque essa pergunta abana egos. Desmonta departamentos. Expõe inutilidades.
Revela cargos que existem apenas para alimentar processos que já não precisavam de existir, tal como a faca de peixe. O empregado continua a colocá-la à mesa. O restaurante continua a comprá-la. As escolas de hotelaria continuam a ensiná-la e os clientes continuam a aceitá-la.


Não porque seja a melhor solução. Mas porque ninguém quer ser a pessoa que desafia o ritual.

E isto vai muito além da restauração. Vivemos numa sociedade profundamente viciada em preservar estruturas antigas mesmo quando elas já não servem as necessidades atuais.

 

Sistemas educativos que continuam a preparar alunos para empregos que desapareceram. Empresas que medem horas em vez de impacto. Lideranças que confundem autoridade com controlo. Pessoas que permanecem décadas em vidas infelizes apenas porque um dia aquilo fez sentido. A verdade é dura: o passado tem um poder enorme sobre nós porque nos dá conforto psicológico. Mesmo quando já não nos dá resultados.

 

E talvez o maior problema da humanidade moderna seja exatamente este: evoluímos tecnologicamente a uma velocidade absurda… mas emocional e estruturalmente continuamos presos a muitos talheres do século XIX.

 

Queremos inovação, mas sem tocar nos hábitos. Queremos transformação, mas sem desconforto.
Queremos futuro, mas emocionalmente continuamos agarrados ao passado.

 

No fundo, a faca de peixe não é sobre peixe. É sobre a quantidade absurda de coisas que continuamos a manter vivas apenas porque foram institucionalizadas durante tempo suficiente para deixarem de ser questionadas.

 

E talvez a verdadeira inteligência moderna não esteja em criar mais ferramentas sofisticadas.

Talvez esteja simplesmente na coragem rara de olhar para algo tradicional, respeitado e aparentemente intocável… e perguntar: “Estamos a fazer isto porque funciona… ou apenas porque sempre foi assim?”

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