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A opinião de Jorge Cristino
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3 de Janeiro de 2024
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Jorge Cristino
Especialista em Sustentabilidade e Governança Multinível

Terminou mais um ano no Planeta Terra. O único conhecido com vida no Universo e cuja velocidade orbital, em torno da estrela que dá nome ao Sistema Solar, é cerca de 108 mil km/h, demorando assim 365 dias a percorrer os 145 milhões de km.


É caso para dizer que o ano passou a correr.

 

Se falarmos de Clima, o tempo está mesmo a passar depressa demais. Segundo o Copernicus, 2023 foi o ano mais quente desde que há registos e está vaticinado pela ciência que estamos efetivamente no Antropocénico.

 

No ano que agora terminou, a temperatura média situa-se 1,2 oC acima da era pré-industrial, seguindo-se a um conjunto de anos consecutivos com aumentos de temperatura. Acelerámos a velocidade de desgelo das calotes polares, do aquecimento dos oceanos, com a consequente redução das correntes oceânicas e o aumento do nível médio do mar. Isto, para além de provocarmos um aquecimento da atmosfera causando períodos de seca mais severos e prolongados, com consequências irreversíveis no solo. Nalguns pontos do Planeta, estes impactos estão a ser quatro vezes mais rápidos do que se esperava. Devido ao efeito cascata, quanto maior for o aumento da temperatura, mais se agravam os impactos das alterações climáticas.

 

Na COP28, no Dubai, num País dependente da indústria do Oil&Gas, foram mais uma vez lançados alertas, quer pela comunidade científica, quer pela população e até por alguns líderes mundiais. Após difíceis negociações e mesmo depois de ter sido lançada uma proposta que fez temer o pior, a verdade é que 160 Países conseguiram “colocar o pé na porta”, permitindo que a Humanidade continue a ter esperança no caminho sem combustíveis fósseis. Ficámos assim a conhecer o primeiro relatório intermédio desde o Acordo de Paris, de 2015, o chamado Global Stocktake, confirmando-se que o nosso inventário global de emissões continua a crescer, apesar de algumas regiões do Mundo, como a Europa, começarem o seu sentido descendente. Mas este documento, em linha com um conjunto de estratégias da União Europeia, aponta ainda para o triplicar da capacidade de energia renovável e o duplicar da eficiência energética, ambas até 2030.

 

O ano ficou ainda marcado por um conjunto de outras conquistas a nível global e europeu. Em termos de Biodiversidade, as Nações Unidas adotaram o primeiro tratado para proteger a vida marinha em alto mar, fora das áreas de soberania nacionais, e a União Europeia (UE) aprovou a Lei de Restauro da Natureza, um histórico diploma que estabelece como meta, até 2030, que 20% das áreas terrestres e marinhas da União Europeia sejam recuperadas, e a sua totalidade até 2050. Para atingir estas metas, os países da UE devem, até 2030, restaurar pelo menos 30% dos habitats abrangidos pela nova lei para um bom estado, aumentando para 60% até 2040 e 90% até 2050.


Muitos outros relatórios, compromissos e objetivos foram estabelecidos em 2023, a nível nacional e europeu, nos vários vetores e áreas ambientais, do qual se destaca, a nível nacional, o relatório voluntário intercalar da Agenda 2030 e a antecipação da neutralidade carbónica ao nível nacional para 2045. É de assinalar, ainda, a subida de um lugar no ranking do Climate Change Performance Index (CCPI), de 14º para 13º. Na prática estamos em 10º considerando que os três primeiros lugares do ranking não são ocupados por ninguém.

 

Estes dados são suficientes para apontar as principais macrotendências para 2024, numa fase em que muitos dos planos já foram desenhados no final do ano passado:

 

1.     Financiamento em Natureza e Biodiversidade:

Os mercados voluntários de carbono estão aí e os fundos verdes estão já a aparecer com grande força para que os investidores apostem em novos ativos naturais e as grandes empresas cumpram com as suas obrigações. A par dos investimentos públicos, os investimentos privados irão alavancar em 2024 os grandes projetos de restauro da natureza e de proteção da biodiversidade;

 

2.     Investimento em Energias Renováveis e Eficiência Energética:

No seguimento das principais linhas, orientações e políticas nacionais e internacionais, em 2024 haverá um exponencial aumento de investimento em energias renováveis e na melhoria da eficiência energética, não só pelos países, mas também e sobretudo pelas empresas no global, seja na indústria, na logística e na distribuição. A crise provocada pela Guerra continua bem presente e o fantasma dos preços altos ainda não despareceu, por isso o aumento do investimento nas renováveis continuará a ser a solução para o garante de uma energia mais segura, acessível e barata;

 

3.     Combate à Poluição (Marinha e Solo):

A poluição, em simultâneo com o aquecimento global, têm vindo a chamar à atenção. Tudo indica que dada a falta de ação e foco em termos globais, vão começar a surgir políticas com maior incisão no combate à poluição nos Oceanos, mas também no Solo, como forma de atacar e diminuir um conjunto de limites planetários que têm sido ultrapassados;

 

4.     Alimentação Sustentável e Saudável:

Um dos maiores desafios da Humanidade continua e continuará a ser, encontrar a forma mais sustentável e segura de produzir os seus alimentos, com o menor impacto e pressão ambiental possível, sem colocar em risco as espécies em extinção. Esta que é a nossa maior fatura da pegada ecológica das últimas décadas e que continua a transformar a nossa paisagem e cultura. Antes de tudo, a redução do consumo, a produção local, o consumo sazonal e de proximidade são fundamentais para a nossa sobrevivência. Uma agricultura e pecuária mais sustentáveis e eficientes, uma transformação e distribuição menos poluentes, são também fundamentais para sermos capazes de alimentarmos mais 8 mil milhões de pessoas de forma justa e segura;

 

5.     Conhecimento dos Oceanos:

Muito ainda existe por descobrir e conhecer nos oceanos. Além de sabermos que é de longe um dos nossos maiores ativos globais, no que toca ao equilíbrio e funcionamento do sistema climático terrestre, é também verdade que muito está por saber sobre as suas potencialidades. Os oceanos que deixaram de estar esquecidos nos maiores encontros Mundiais do Clima, ganharam já uma posição de destaque e um foco primordial na ação e no investimento das instituições. As primeiras ações passarão por investir mais no seu conhecimento e nas suas capacidades exponenciais de regeneração, tentando perceber o que de melhor e de pior se faz aos Oceanos;

 

6.     IA

A Inteligência Artificial veio para ficar. Revolucionou o período pós-pandemia e vai continuar a surpreender tudo e todos. A infinitude de aplicações e as vantagens (e algumas desvantagens) que trazem ao dia-a-dia das pessoas e das empresas, vão colocar esta nova era num momento de transição até 2025, capaz de revolucionar as tecnologias, o acesso à informação, a produção de conhecimento, a velocidade de processamento e obtenção de resultados e até a forma de monitorizarmos dados e indicadores ambientais. É sem dúvida de aproveitar o ano de 2024 para apostar e investir mais na IA para conhecermos e estudarmos melhor o nosso Clima, o nosso Território, as Cidades, o comportamento Humano e os Oceanos, e colocarmos ao serviço da ciência e do ambiente, restaurando os ecossistemas e protegendo a natureza;

 

7.     Monitorização, Reporting e Avaliação:

Pelo conjunto de diplomas nacionais e europeus, 2024 e 2025 continuarão a ser anos de muito trabalho para o levantamento de dados, estudos de indicadores, planeamento e avaliação. A começar pelas Cidades, que através da Lei de Bases do Clima têm os seus Planos de Ação Climática para finalizar, com os seus inventários de emissões e as suas propostas de ação para as reduzir. E a terminar nas Empresas, no setor Financeiro e nos Seguros que terão, por obrigação, de monitorizar e reportar os dados não financeiros das suas organizações, tendo o carbono como um dos proxy para medir. É certo que não haverá mãos a medir no esforço a que todos estão sujeitos. O que vai faltar aqui será algum bom-senso, equilíbrio, uniformização, veracidade dos dados e quem os interprete corretamente para se perceber se estamos a ir depressa ou devagar, se na direção certa ou errada da ação;

 

8.     Ação na Adaptação:

A adaptação às alterações climáticas continuará a ser sempre um dos principais focos a nível internacional, por força do reforço do financiamento obtido na COP28, mas também em Portugal. Enquanto não formos capazes de resolver de forma estruturante as crises de seca, os impactos das ondas de calor em meios urbanos e os trágicos fogos florestais, continuaremos a perder riqueza, a gastar recursos e meios e sobretudo a perder vidas humanas e a empobrecer a nossa economia. O investimento em ações de adaptação estruturantes e de longo prazo são fundamentais para diminuirmos os impactos destas ocorrências que são já incontroláveis na sua intensidade e frequência;

 

9.     Prevenção e Planeamento:

A prevenção e o planeamento são fundamentais para que possamos estar mais bem preparados para o futuro, seja para enfrentar novas crises, seja para recuperarmos delas com maior resiliência.

Após a pandemia, crises provocadas pelo Homem, como os conflitos bélicos ou a gestão de recursos que estamos a ser confrontados, o que tem sido mais badalado é a certeza de que estas crises se repetem. Do que também não há dúvidas é que o agravamento das condições ambientais aumenta a gravidade e intensidade destas crises, que os riscos são cada vez maiores e que um bom planeamento e prevenção são o melhor remédio para os evitar e para mitigar. Devemos estar sempre preparados para o pior de forma estruturada e organizada;

 

10.  Pausalipse:

Estes são períodos também de abrandamento, de desaceleração e equilíbrio entre as nossas vidas profissionais e pessoais. A legislação laboral assim o vai exigindo. O que se pretende é que continue a existir profissionalismo e objetivos, sem exigir demais de nós próprios e dos outros. É o momento de dar valor ao essencial e ao que nos faz verdadeiramente felizes e realizados.

A tolerância, a paz e a coexistência devem prevalecer nas nossas vidas, onde a cooperação, a compreensão, o respeito e o multilateralismo devem ser a essência da nossa ação diária.

 

Da mesma forma que a ciência nos ajudou a perceber que a ação humana foi capaz de provocar alterações ao Sistema Climático Terrestre, baseadas no nosso comportamento, escolhas e consumo, é altura de perceber que os nossos comportamentos individuais positivos também desencadeiam ações globais de impacto positivo e de reconstrução. A ética, a moral, a verdade, a lealdade e a confiança serão valores a reconquistar em 2024.

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