
Newsletter
Pesquisa

A evolução dos comportamentos de massa na sociedade contemporânea alterou-se de forma significativa nos últimos anos. Esta evolução deve-se, em parte, ou talvez sobretudo, à democratização no acesso à informação e à gratuitidade das infraestruturas que permitem o contacto entre pares, entidades ou indivíduos.
Tanto nos modelos diretos como nos de broadcast, existe um novo conjunto de ferramentas que agilizam o processo, tornando-o mais direto, rápido e automático. Gera-se, então, uma competição tecnológica pelo grande asset dos nossos tempos: a atenção. É curioso observar como familiares, amigos, empresas, algoritmos, posts e memes competem todos pelo nosso tempo de ecrã.
A arquitetura do sistema é brilhante na sua aparente simplicidade. Pela simples partilha do nosso número de telemóvel ou e-mail, concedemos uma suposta permissão para uma "candidatura" ao nosso tempo de atenção. Mas quem (ou o quê) determina, na realidade, a nossa disponibilidade?
A informação transita através de um operador que foi ultrapassado na sua influência e não conseguiu manter-se relevante como intermediário e é remetida por uma “infraestrutura”, direcionada a um “dispositivo” de consumo de informação. É aqui que reside um cálculo extraordinariamente complexo que, em última análise, propõe (ou impõe) ao utilizador aquilo que ele deverá ver.
Ao enviar um SMS para um dispositivo móvel, este pode ser categorizado pelo seu sistema operativo como interessante ou irrelevante. O scraping é real e o processo de decisão não é público; com a presença de uma IA local, é plausível considerar que esse processo seja, inclusive, desconhecido para os seus próprios criadores.
O mesmo sucede com o e-mail. Qual é a base real do cálculo de spam? O que é, afinal, o spam e de onde é emitido? Recebo diariamente dezenas de e-mails de spam (que já residem na pasta própria) que conseguem furar uma IA local já razoavelmente treinada. É curioso detetar que a grande maioria é emitida com registos digitais perfeitos, através de um dos maiores CRMs do mundo. Isto levanta graves suposições sobre o sistema montado e consubstancia a possibilidade de o spam ser, ele próprio, uma revenue stream significativa da estrutura central.
Um último ponto relevante nesta análise prende-se com a credibilização do contacto. Se nos apresentamos a uma “infraestrutura” ou a um “dispositivo”, como garantimos a maximização das hipóteses de que o que enviamos chegue e surta o efeito pretendido?
Recentemente, as plataformas públicas de e-mail introduziram analisadores que distinguem se a mensagem resulta de um processo de broadcast ou P2P. Se cair na primeira categoria, são verificados automaticamente parâmetros legais, como a existência de disclaimers de privacidade ou mecânicas de opt-out. Na ausência destes, a mensagem é diretamente descartada (penalizada) para o spam, jamais chegando aos olhos do utilizador.
Outra novidade é a leitura da versão “plain text”. Parece algo legado, que ninguém usa. Mas o "ninguém" não importa para o algoritmo. Ele é insensível à cor, ao logo ou ao flash. O algoritmo procura informação, texto puro; vai analisar se o conteúdo está lá e, não estando, como poderá o sistema operativo resumir o conteúdo? Como poderá a IA local perceber se o contacto é credível? Possivelmente não o fará e, nesse contexto, o ideal será - dentro de tudo o que o sistema sabe sobre o utilizador - entregar-lhe apenas mais uma dose de dopamina e outro anúncio de 20 segundos.
Caminhamos para um momento em que o dispositivo nos perguntará ativamente quem são os nossos familiares e amigos diretos (se é que já não o faz). E apenas esses serão entregues. No limite, o sistema operativo deixará de o ser para se preparar para ser um puro broker de atenção.
Artigos Relacionados
fechar

O melhor do jornalismo especializado levado até si. Acompanhe as notícias do mundo das marcas que ditam as tendências do dia-a-dia.
Fique a par das iniciativas da nossa comunidade: eventos, formações e as séries do nosso canal oficial, o Brands Channel.