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A Inteligência Artificial (IA) tem registado avanços extraordinários nos últimos anos, porventura a uma velocidade mais acelerada do que o esperado, impulsionada pelo desenvolvimento de modelos generativos, visão computacional e sistemas de aprendizagem contínua.
No plano industrial, importa sublinhar que esta transformação não é apenas um fenómeno distante ou limitado às grandes multinacionais. Em Portugal, na fileira da moda, existem já empresas industrialmente de ponta onde a Inteligência Artificial é utilizada de forma corrente para otimizar processos produtivos, melhorar a gestão de stocks, antecipar necessidades de aprovisionamento e reforçar a capacidade de resposta ao mercado. Da modelação à logística, passando pelo controlo de qualidade e previsão de encomendas, a integração de sistemas inteligentes tem permitido ganhos significativos de eficiência, flexibilidade e competitividade internacional.
No plano da promoção, ferramentas capazes de criar imagens hiper-realistas, simular ambientes, gerar textos criativos e prever tendências estão igualmente a transformar diversos setores de atividade. Há um Admirável Mundo Novo por explorar.
Com efeito, na dimensão criativa, aquilo que no passado exigia equipas numerosas e elevados investimentos pode agora ser produzido digitalmente, com rapidez e custos mais reduzidos. Esta aceleração tecnológica não representa apenas uma evolução incremental; traduz antes uma mudança estrutural na forma como o conteúdo é criado, distribuído e até percecionado.
Marcas como Prada, Gucci, Moncler, Valentino ou Zara já utilizam IA para prever tendências, otimizar cadeias de abastecimento e personalizar experiências de compra. Em paralelo, emergem campanhas totalmente digitais, modelos virtuais e cenários criados por computador que dispensam produções físicas complexas. Ainda assim, as primeiras experiências nem sempre foram bem-sucedidas.
Nesta fase, a IA já permite testar coleções em ambientes simulados, criar lookbooks sem sessões fotográficas tradicionais e adaptar conteúdos a diferentes mercados num curto espaço de tempo. A eficiência aumenta, mas reconfiguram-se também papéis profissionais consolidados há décadas. Persistem, aliás, lacunas de qualificação para sustentar esta transformação.
Os profissionais da imagem foram dos primeiros a sentir esta mudança. Plataformas de geração visual conseguem produzir campanhas sem estúdio, iluminação ou deslocações. Contudo, a tecnologia continua dependente de direção criativa, sensibilidade estética e narrativa visual, elementos que permanecem distintivamente humanos. O desafio não será competir com a máquina na execução técnica, mas elevar o nível conceptual e artístico. Quem integrar a IA como ferramenta - e não como ameaça - tenderá a posicionar-se melhor no mercado. Há, em particular nesta fase de transição, muito a ganhar.
Também os manequins enfrentarão mudanças profundas. Avatares digitais e modelos virtuais já participam em campanhas globais, oferecendo às marcas controlo total sobre imagem e disponibilidade, além de redução de custos. Mas a que preço? A autenticidade, a personalidade e a influência cultural de modelos reais continuam a ter valor. O diferencial poderá residir na construção de marca pessoal, na ligação a comunidades e na capacidade de representar diversidade real. Modelos que desenvolvam competências digitais e presença estratégica online terão vantagem competitiva. Não há tempo a perder, mas é importante que os direitos de imagem sejam salvaguardados.
A melhor resposta dos profissionais da fileira da moda não será resistir à Inteligência Artificial, mas integrá-la. A diferenciação estará cada vez menos associada à execução técnica e cada vez mais à capacidade de criar autenticidade. Num cenário de produção automatizada, o que ganha valor é a identidade, a narrativa e a emoção.
A indústria da moda não prescindirá do talento humano. Mas é urgente que os profissionais se reinventem e que saibam traduzir inovação tecnológica em expressão criativa.
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