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Os dados do relatório indicam que, apesar dos diferentes contextos culturais e nacionais, as crianças e jovens europeus revelam padrões de uso e experiências similares no que diz respeito a tipos de aplicações e serviços de IA generativa que utilizam.
A inteligência artificial generativa (IA Gen.) já é uma realidade quotidiana para crianças e adolescentes em Portugal e na Europa.
Segundo o último relatório da rede de investigação EU Kids Online (EUKO), baseado numa amostra a 25.592 menores de 9 a 16 anos e 244 entrevistas, a IA integra-se de forma acelerada nas suas práticas digitais, tanto no uso de ferramentas como o Chat GPT, como na integração em plataformas já usadas, como o Roblox.
Portugal: um uso mais intenso e diversificado
Os resultados de Portugal apontam que o uso de IA generativa está muito difundido: quase nove em cada dez crianças e jovens afirma ter utilizado esta ferramenta no último mês. Este número aumenta com a idade. Os usos mais frequentes centram-se no âmbito escolar:
• 48% para resumir ou explicar um texto longo
• 47% para ajudar a fazer trabalhos da escola
Os testemunhos de jovens utilizadores assinalam desafios de novos ambientes de estudo: receber informação não solicitada, condicionada no seu estilo ou mesmo falsa, decorrente do próprio funcionamento da IA Generativa; incentivo da plataforma a prosseguir ligado e a usufruir de outros recursos (esquemas, resumos, cronologias...); automatismo na realização de tarefas e por vezes a substituição do processo de aprendizagem pela rapidez e eficiência da ferramenta:
“Entro na [plataforma] Classroom. Os professores deixam lá a indicação. Eu copio o texto da indicação, colo no Chat GPT e eu digo ‘responda’ e depois dois pontos, a indicação que o professor deu na Classroom. Ele dá a resposta, eu vou no Docs e colo a resposta. Às vezes faço modificações no texto. Às vezes deixo igual, se eu gostar”. (Samuel, 17 anos).
As nuances: a permanência da divisão digital
Diferenças de género e sobretudo socioeconómicas entre os utilizadores da IA generativa sugerem a permanência de uma divisão digital, em linha com resultados europeus. Os testemunhos de entrevistados confirmaram divisão digital nas condições materiais de acesso e na frequência de uso marcada pela condição socioeconómica.
Mas revelaram, também, “a importância da dimensão individual: nalguns casos, a curiosidade e a vontade de exploração, em mais novos, contraria a estrita focalização em estudos, em mais velhos”. Revelaram, também, “a relevância da maturidade e de traços de personalidade”, apontam Cristina Ponte e Susana Batista, da FCSH e responsáveis por este estudo, em comunicado.
A IA como refúgio emocional e ferramenta criativa
Para além de atividades relacionadas com a escola, a IA ocupa espaços da esfera privada. Portugal é um dos países onde mais jovens recorrem a IA Generativa para aconselhamento. Um quarto dos inquiridos usa estas ferramentas para apoio emocional e pessoal, dez pontos acima da média europeia (15%) - “É como se estivéssemos a falar com uma pessoa, só que essa pessoa não existe.” (Maria, 13 anos).
Se o dispositivo comunicacional destas ferramentas favorece a ilusão de proximidade e a compensação imediata, o (aparente) bem-estar é acompanhado de sentimentos de insegurança, de culpa e de perda de controlo na gestão de tempos, lê-se no relatório.
O relatório também ilustra como a IA permite que os jovens realizem projetos criativos antes inalcançáveis, como a programação de jogos.
Receios e responsabilidade partilhada
O relatório nacional revela como, apesar do uso generalizado, crianças e jovens não são acríticos. Preocupam-se com a manipulação e geração de conteúdos falsos (deepfakes), e a possibilidade de os seres humanos perderem o controlo da tecnologia supera a crença de que as tecnologias vão impulsionar a criatividade e imaginação humana.
Vários testemunhos sublinham desejos de maior literacia e de integração destas tecnologias no ambiente escolar. Sobre quem e como se deve controlar estes riscos, os jovens assinalam uma perspetiva de prevenção que envolve as empresas tecnológicas e os próprios utilizadores (como eles mesmos) para um uso consciente responsável eético.
Uma chamada a políticas baseadas em evidência
O relatório europeu EU Kids Online assinala que o debate público sobre crianças e tecnologias costuma contrastar entre o sensacionalismo e os pânicos morais, por um lado, e as expetativas deslumbradas sobre a tecnologia, por outro.
Nesse sentido, os resultado procuram orientar novas políticas de regulação e educação que protejam o bem-estar e os direitos das crianças e jovens num ambiente em que a IA generativa já está omnipresente.
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